Da dualidade espírito-corpo à teoria educacional idealista

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O dualismo espírito-corpo e a primazia concedida ao espírito conduz, como vimos anteriormente, ao menosprezo das atividades corporais e, por decorrência, ao papel dos sentidos. No bojo de tal menosprezo encontra-se a onipotência do espírito, fazendo resultar o sentido das ideias em nome da dispensa da atividade judicativa que garante pensar o vínculo entre as percepções sensíveis e as coisas. A onipotência do espírito conduz, em última instância, à incapacidade de julgar. Neste núcleo do dualismo filosófico repousa a teoria educacional idealista, com suas formas de organização do ensino e suas atribuições pedagógicas específicas à relação entre professor e aluno no âmbito da educação escolar.

Na coluna de hoje pretendo tratar destas consequências pedagógicas que resultam do dualismo espírito-corpo, analisando mais precisamente alguns aspectos de sua teoria educacional, reservando, para a próxima coluna, a análise da relação pedagógica entre professor e aluno. Cabe atentar, primeiramente, para o seguinte aspecto: quando Dewey trata da teoria da educação, embora dedique tempo significativo para a educação escolar, não limita sua análise a ela. Por isso, é importante compreender sua teoria mais ampla da instrução, pois ela embasa normativamente sua crítica ao modelo tradicional de educação.

Outro aspecto importante a ser considerado é que Dewey nem sempre se mantém no plano estrito das teorias educacionais quando faz sua crítica à teoria idealista de educação. Como filósofo da educação, conhece bem as raízes filosóficas do dualismo espírito-corpo e o modo como esta doutrina entra para o âmbito das teorias educacionais. Contudo, também tem clareza do quanto isto se mistura imprecisamente no âmbito da prática pedagógica, influenciando confusamente a organização do ensino e a própria relação pedagógica entre professor e aluno no interior da escola.

Ou seja, para compreender sua crítica e, ao mesmo tempo, as principais ideias de sua própria teoria educacional é preciso considerar diferentes níveis de análise que na maioria das vezes se encontram mesclados entre si. Há o nível filosófico, no qual o alvo são as doutrinas filosóficas propriamente ditas e ao qual se refere diretamente sua crítica ao dualismo filosófico espírito-corpo. Há, de outra parte, o nível das teorias educacionais, o qual diz respeito aos aspectos constituintes da teoria geral da instrução, compreendendo temas como noção de ser humano, ideia de sociedade e finalidade própria da educação. Por fim, vem todo o âmbito prático da educação, abrangendo questões da organização do ensino, da educação escolar, do currículo e da relação pedagógica entre professor e aluno.

Estes três níveis constituem a arquitetônica analítica na qual Dewey se movimenta tanto para criticar teorias educacionais como para defender suas próprias ideias educacionais. Como ele entrelaça argumentos e como não distingue claramente o nível de análise que está adotando momentaneamente, o interprete muitas vezes vê-se enredado por dificuldades que tornam ainda mais árdua sua tarefa interpretativa. Por isso, reconstruir vagarosamente sua argumentação põe-se como exigência obrigatória para melhor compreender seu pensamento e, quando for o caso, criticá-lo.

Tenho defendido, neste contexto, a hipótese geral, já arrolada em colunas anteriores, que Dewey desenvolve sua teoria da educação como ampla teoria da instrução, a qual é profundamente devedora da tradição pedagógica passada, principalmente, de teorias modernas clássicas, como de Jean-Jacques Rousseau e Johann Friedrich Herbart. Ele dialoga com a tradição empreendendo duplo movimento: mantém desta tradição ideias que julga importante e pedagogicamente defensáveis, criticando o que considera superado e, portanto, desatualizado. Em colunas anteriores reconstruí brevemente sua crítica à Rousseau e Herbart, resumindo simultaneamente os aspectos nucleares de sua própria ideia de educação que resulta de tal crítica.  

Com base nestas considerações mais amplas, gostaria de resumir agora, seguindo de perto algumas passagem do capítulo XI de Democracia e Educação, sua crítica à teoria educacional idealista. A noção idealista de educação encontra-se profundamente entrelaçada com a primazia concedida, no nível filosófico, ao espírito e a correspondente redução da condição humana à atividade intelectiva. O ser humano é compreendido como um ente racional que carrega consigo o peso do corpo; a verdade brota de sua atividade intelectiva e o corpo serve como grande atrapalho. Deste modo, o que interessa para a educação é o espírito (intelecto) humano, pois é dele que tudo se origina e tudo ganha sentido. O ser humano se forma quando se apoia em sua razão intelectiva; deforma-se quando se deixa orientar somente pelos sentidos.

Mas o que é o espírito? Do ponto de vista do conhecimento educacional, é constituído fundamentalmente pela memória, cuja função é reter informações e disponibilizá-las para as atividades do entendimento. De outra parte, tanto memória como entendimento são ativadas pela capacidade humana da imaginação. Deste modo, de acordo com a concepção idealista, memória, entendimento e imaginação são três grandes faculdades humanas que tornam possível o conhecimento, embasando e dando sentido ao aprendizado humano. Mas – e esta é a tese idealista de fundo –, quanto mais puras e distanciadas das impressões sensíveis tais faculdades estiverem, mais elas se aproximam da verdade.

 Se o intelecto é movimentado por esta dimensão tripartite memória-entendimento-imaginação, tal movimento mantém-se porém no plano das ideias. Então, aprender nada mais é, neste contexto, do que a memorização que o aluno faz do conteúdo ditado pelo professor. As ideias vem representadas pelo conteúdo e a ação pedagógica do professor é a maneira de torna-las presentes na cabeça do aluno. Observe-se que tudo ocorre sem que o interesse do aluno e sua própria experiência sejam levados devidamente em conta. Tudo já está pronto, há espera de ser aprendido pelo aluno; por isso, quanto mais exercitar seu intelecto (sua memória), mais condições terá de aprender o conteúdo ensinado. 

Há uma passagem muito elucidativa do capítulo XI de Democracia e educação, na qual Dewey esclarece metaforicamente a noção idealista de educação, ao estabelecer a analogia entre os que se instruem e a atividade intelectiva do espírito. Assim afirma ele: “Nas escolas se considera ordinariamente aos que se instruem como espectadores teóricos que adquirem conhecimento, como os espíritos que conhecem pela energia direta do intelecto” (grifos meus). A metáfora é clara: o aluno é reduzido à condição de espectador teórico que aprende diretamente da atividade de seu espírito (intelecto). Qual é o significado pedagógico da metáfora do espectador teórico? O que significa, para a noção de educação, a ideia de que o aluno aprende somente pela atividade do espírito?

Intelecto é tomado aqui, no âmbito da teoria idealista, como sinônimo de espírito entendido como entidade mental isolada. Deste modo, o espirito é a força cognitiva poderosa que o ser humano possui para conhecer o mundo e dominar os objetos. Ele indica, de acordo com a concepção idealista, a supremacia do ser humano em relação aos eventos do mundo e sua capacidade cognitiva infinita para conhecer as coisas. Uma vez acionado corretamente, proporciona conhecimento correto sobre as coisas.

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