Tesouro jesuítico

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A casinha era alugada, de madeira, duas peças, cozinha e quarto para dois adultos e três crianças, que nas noites de verão, obrigava o chefe de família, a ir dormir lá fora, ao relento, debaixo de uns pés de mamona, testifico, porque eu era visita, pousava ali, para no outro dia de madrugada, ser o primeiro a comprar um carinho de bananas na Avenida Mauá.

Mas o causo que conto, se passara dentro de casa.

Meu tio estava deitando no catre, absorto, pensativo, talvez ruminando sua mocidade de rapaz rico, suas estrepolias guerreiras, os tiros, os mangaços, os floreios de adaga na frente de adversários, as mortes... a cadeia... a ruína moral e pessoal, a decadência, o empenho de tudo do pouco que tinha, só para comer, agora, changueador, pintor de paredes... talvez tenha pensado...que *mierda de vida...fazer o que...não tinha saída.

Por conta de uma simpatia, tinha deixado de beber, conhaque, cachaça, o que viesse, mas continuava fumando, ali deitado, sozinho, encostara o malvado num cinzeiro, bebeu meio copo d'água que estava no bidê, e continuou ruminando pensamentos.

De repente, sem aviso algum, as paredes, sumiram de suas vistas, continuava deitado na cama, mas via tudo como que se dia fosse, a amplidão das coxilhas e das matas desta Missão de Santa Tereza, o céu o sol, o canto dos pássaros, *relinchos de cavalos, vozerio de gente, homens mulheres e crianças, andando em fila indiana.

Na frente, três padres jesuítas, todos parecidos, brancos, de cavanhaque, espanhóis, todos a cavalo, índios, dezenas, mulheres e crianças a pé, seguindo aquele séquito, ao inverso do que dizem hoje os historiadores, iam do sul para o norte, do Pessegueiro para o Povinho Velho.

Com certeza era a fundação da Missão, mas vinham fugindo de outra.

Pararam ali na sua frente. Desmontaram, fizeram alto, se acomodaram, era ponto de meio dia, embora meia noite fosse milho, farinha, charque, água de cuia, almoçaram a indiada, sem se importar com sua presença, era invisível.

Um espírito aproximou-se, sentou-se em sua cama, tomou o restante da água do copo, tragou todo o seu cigarro, e disse:

Tudo isto que vais ver é para você!

Os padres mandaram os índios fazerem um buraco, coisa de uns poucos metros de onde ele estava deitado na cama, colocaram dentro uma botija grande de barro, manietaram um índio, colocaram-no dentro, degolaram, e cobriram com terra... O espírito explicou que era para ele ficar cuidando do tesouro.

Seguiram mais uns cem metros, e repetiu a mesma cena, a mesma crueldade, buraco, pote de barro, índio degolado, fecha tudo, como se nada tivessem feito.

Um dos padres assestou o sextante, olhando em direção ao norte, e o vidente entendeu que apontava para um majestoso pinheiro, encravado entre tantos, nas margens do rio Igay, e com outro pinheiro macho, encravado numa coxilha, mais ou menos umas cinco léguas dali, desenhou, anotou num livrinho de folhas costurado a mão, tantos graus, latitude e longitude e seguiram seu caminho aquela frota humana em direção do pinheiro marcado.

Outra parada, um imenso banhadal cortava a frente da caravana, já estava escurecendo, trataram de bivacar alumiados por uma grande fogueira, de onde o vidente avistou novamente a terceira repetição de enterro de cabedal, ao som de cantoria dos índios guaranis.

Se foi a visagem!

Se viu novamente dentro de casa, no meio de sua pobre vida.

Dormiu!

Acordou de manhã, levantou e olhou para o bidê:

O copo continha meio de água, e o cigarro continuava no meio, aceso.

Nunca mais fumou!

O restante da história periga a verdade se eu contar.... Então me calo!

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