Os Fuscas do Maluf

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Em 21 de julho de 1970, o então prefeito da cidade de São Paulo, o senhor Paulo Salim Maluf, presentou os jogadores e a comissão técnica da seleção brasileira de futebol com um Fusca zero quilômetro para cada um. Todos os 25 Fuscas traziam sobre o porta-malas uma dúzia de rosas vermelhas. No para-brisa traseiro, além do emblema da concessionária, havia um plástico com os dizeres: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. O presente inusitado foi dado em virtude da conquista do tricampeonato mundial de futebol, dias antes.

Os jogadores comemoraram muito o presente na solenidade de entrega, realizada no parque Ibirapuera. O “furacão da copa”, Jairzinho, declarou que o Fusca seria o primeiro carro da vida dele. Everaldo, lateral esquerdo e Zagallo, técnico, disseram que dariam os Fuscas para suas esposas, pois já tinham outro carro.

Quase todos os jogadores declararam que “presente não se vende”, dando a entender que ficariam com o Fuscas. Contudo, a maioria acabou se desfazendo do carro logo depois de receberem o agrado e o paradeiro dos automóveis se perdeu. Piazza, que era o goleiro, vendeu o fusquinha para investir em um posto de gasolina.

Os jogadores sempre disseram que não sabiam de onde tinha vindo o dinheiro. “Recebemos como um presente, como uma homenagem, na euforia de um título tão importante. Eu tinha 23 anos", disse Tostão, hoje comentarista de futebol na TV. Depois de usar o Fusca por vários anos, acabou vendendo. "Só depois soubemos que o dinheiro era da prefeitura e que havia um processo", declarou.

O presente nada singelo deu razão a uma briga judicial que durou mais de 36 anos. O processo dos Fuscas foi movido pelo advogado Virgílio Egydio Lopes Enei. Ele acusava Maluf de ter lesado o erário, pois a cidade de São Paulo não obtivera nenhum benefício com os Fuscas, muito pelo contrário. Em 1974 a Justiça paulistana considerou que o político havia lesado os cofres públicos sem beneficiar a cidade. Mais de três décadas de recursos depois, o hoje deputado federal residente na penitenciária da Papuda, foi inocentado pelo STF. Os Excelsos Desembargadores consideraram que a Lei que Maluf havia criado (sim, ele criou uma lei para dar os Fuscas e os vereadores da época aprovaram) era constitucional e, por isso, não foi condenado a devolver o dinheiro para a cidade nem recebeu qualquer punição.

Apenas um dos Fuscas do Maluf sobreviveu ao tempo, ao menos algumas peças. Dois meses após ter recebido o presente, o lateral-direito Zé Maria acabou tendo o Fusca capotado pelo próprio irmão. "O fusquinha ficou quase destruído, mas consegui retirar algumas peças e coloquei em outro Fusca, de 1966". O carro que recebeu as peças está até hoje com o ex-jogador, que com bom humor relembra que na época não gostou nada da cor do presente. "Ele era verde, né? E eu sou corintiano".

 

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