Cadáveres e meio ambiente

Postado por: Alcindo Neckel

Compartilhe

A conhecida máxima de Lavoisier – “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” – é válida para explicar o que acontece após a morte com o ser humano, pois para os autores Fiúza, Viotti e Griffo (2003, p. 22) o homem “é formado por átomos, partículas interligadas que formam moléculas”.

A matéria pode sofrer alterações devido à ação de agentes biológicos, físicos ou químicos quando há a morte do ser humano. Com a suspensão da vida, passam a existir dois tipos de matéria: a inorgânica, formada por elementos químicos puros, ou compostos, e a orgânica, que se constitui de todo elemento que possuir carbono em sua composição e que conforme Fiúza, Viotti e Griffo (2003, p. 21-22) “devido a sua combinação com oxigênio e hidrogênio, sofre alterações principalmente biológicas”.

Nessa sequência, os organismos precisam proceder a uma troca de energias para o seu sustento e a sua sobrevivência no ambiente. Surge, então, a cadeia alimentar. Nessa cadeia alimentar há um topo, ocupado pelos carnívoros, seguidos dos herbívoros e onívoros, das plantas, tendo na sua base os microrganismos decompositores. Estes últimos são os principais elementos encontrados na cadeia alimentar de um cemitério, de modo que os corpos se transformam em verdadeiros ecossistemas microrgânicos quando em putrefação.

 Entretanto, existe uma forma de identificar a fase de decomposição em que o corpo se encontra. As etapas pelas quais um corpo irá passar durante seu período de decomposição são descritas na Tabela 1, que traz a referência tempo/características do cadáver:

 Tabela1.Tempo/características do cadáver.

 Tempo 

 

Características

 

> 2 horas

Corpos quentes, flácidos e sem livores

De 4 – 6 horas

Rigidez dos membros superiores, nuca e mandíbula, perda de 1°C por hora

De 8 - 23 horas

Rigidez, manchas, desaparecimento das artérias do fundo dos olhos

De 24 – 48 horas

Presença de mancha verde abdominal, flacidez na papila

De 48 – 72 horas

Extensão da mancha verde abdominal

De 72 – 96 horas

Fundo do olho irreconhecível

De 2 – 3 anos

Desaparece a parte mole do corpo

< 3 anos

Esqueletização completa

 Fonte: Adaptado de Fiúza, Viotti e Griffo (2003, p.35).

Após o falecimento de um indivíduo da espécie humana, a matéria passa a sofrer ações de bactérias ou enzimas, destruindo gradualmente os tecidos, que se transformam em gases, sais e líquidos. Às vezes, a putrefação pode ser percebida já nas primeiras 24 horas, como também pode levar até três dias para seu início, dependendo das condições do ambiente em que o corpo se encontra, como temperatura e umidade. Os gases produzidos, geralmente, são: Gás Sulfídrico (H2S), Metano (CH4), Gás Carbônico (CO2), Amônia (NH3) e Hidrogênio (H2). Já o mau cheiro é causado pelos Mercaptanos, que são metilas ou etilas, derivados de gases intestinais ou fezes. Cada corpo pode liberar de 30 a 40 litros de necrochorume durante esse período conforme cita a FUNASA (2007 p. 28-29).

Neste sentido, algumas pesquisas comprovaram que, não há exatamente uma composição do necrochorume em relação a sua carga microbiológica. Quanto à composição química, torna-se bem provável a ocorrência de elevados números de bactérias, como, por exemplo, as heterotróficas, grandes degradadoras de matéria orgânica; proteolíticas, degradadoras de proteínas; e as lipolíticas, degradadoras de lipídeos.

Dentre as bactérias encontradas no necrochorume, são comuns as excretadas por humanos e animais de sangue quente, como Escherichia coli, Enterobacter, Klebsiella, Citrobacter, estas formadoras dos grupos de coliforme total; Streptococcusfaecalis, Clostridium perfringes e Clostridium welchii, entre outras. Ainda nesse meio, podem ser encontradas bactérias patogênicas como a Salmonellatyphi e vírus humanos como o enterovírus. Há, ainda, segundo Matos (2001), uma instigante questão a respeito de cadáveres contaminados por pequenas dosagens de radiação, como é o caso dos que, antes de morrer acabam por realizar sessões contínuas de radioterapia na tentativa da sobrevivência.

No corpo de um adulto de 70 kg existem, em média, de acordo com UCISIK e RUSHBROOK (1998, p.) apud CAMPOS (2007, p. 31) cerca de “16.000 g de carbono, 1.800 g de nitrogênio, 110 g de cálcio, 500 g de fósforo, 140 g de enxofre, 140 g de potássio, 100 g de sódio, 95 g de cloreto, 19 g de magnésio, 4,2 g de ferro e em torno de 65% do peso total de água”.

Dr. Alcindo Neckel - Professor do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo – PPGARQ. Escola de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade Meridional - IMED. Núcleo de Estudos e Pesquisas em Mobilidade Urbana – NEPMOUR

 *** A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.



Leia Também Alimentação durante o tratamento da infecção urinária Estado falha e municípios pagam a conta da saúde O cão, o trigo e o Fusca Não incide IOF sobre fluxo financeiro em participação em sociedade