O pensamento enquanto capacidade de discernir relações

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Dewey dedica a primeira parte do capítulo XI de Democracia e Educação para tratar do dualismo filosófico espírito-corpo e as consequências pedagógicas que daí resultam. Como vimos, a postura idealista não só separa o espírito do corpo como atribui superioridade ao espírito, enfraquecendo a atividade corporal e o papel dos sentidos. Desta maneira idealista de pensar resulta a noção estreita de experiência humana, que é reduzida à capacidade especulativa de manusear conceitos. A teoria educacional idealista, ancorando-se no dualismo filosófico, concentra seus esforços no aparato cognitivo do espírito, valorizando tão somente a atividade intelectual tanto do professor como do aluno.

Em síntese, pode-se dizer que a teoria educacional idealista prende-se somente à noção intelectiva (cognitiva) de experiência humana. Contrapondo-se a ela, Dewey desenvolve outra noção de experiência, duplamente considerada, como experiência de pensamento e como experiência formativa. Embora ambas estejam profundamente entrelaçadas, uma não existindo sem a outra, elas não são a mesma coisa. A experiência de pensamento diz respeito à capacidade humana reflexiva, ou seja, à sua capacidade de julgar, discernindo relações. A experiência formativa, por sua vez, não se preocupa diretamente com a estruturação interna do ato de pensamento, mas sim com seu processo de formação, tomando a relação pedagógica entre professor e aluno como um caso paradigmático.

A segunda parte do capítulo XI de Democracia e Educação é dedicada para tratar especificamente da noção ampliada de experiência humana. Dewey só consegue diferenciá-la da concepção idealista porque possui uma ideia orgânica de condição humana, na qual espírito e corpo formam uma só unidade, exercendo obviamente papeis distintos. De outra parte, ele formula a tese central de que só há experiência com sentido, quando ela vier acompanhada de pensamento. Portanto, a noção ampliada de experiência humana requerida por Dewey depende da concepção orgânica de condição humana e, simultaneamente, da própria noção de pensamento humano. Considerando a importância de tal noção (de pensamento) na arquitetônica pedagógica de Dewey, gostaria de me ocupar, na coluna de hoje, precisamente com ela.

Definir o que é o pensamento humano sempre foi uma das grandes questões filosóficas. Desde a antiguidade, os filósofos se debruçaram sobre ela, mostrando que de sua investigação depende também a própria definição de conhecimento humano. Não preciso repetir aqui a crítica empreendida por Dewey tanto ao dualismo como ao sensualismo. Sua noção de pensamento vai na direção oposta não só do ato especulativo, mas também do ato meramente sensitivo. Se só há experiência com sentido quando ela é acompanhada por pensamento, o que ele significa mais precisamente?

Antes de tudo, pensamento tem a ver com discernimento, mais precisamente, como já vimos, com a capacidade humana de discernir relações. Se o ser humano não possuísse tal capacidade, ele permaneceria imerso no mundo dos objetos, sem poder distingui-los e, menos ainda, usá-los a seu favor. O primeiro ato de discernimento importante foi, por exemplo, quando o primitivo intuiu que poderia usar o galho da árvore caído no chão como instrumento, quer seja para apanhar a fruta no alto do pé ou para se defender de animais ferozes. Este simples discernimento marcou a longa evolução humana, na qual o ser humano foi aperfeiçoando cada vez mais sua destreza técnica de manusear instrumentos.

Portanto, há um vínculo estreito entre experiência e discernimento. Isso torna-se decisivo, pois quando Dewey fala de experiência, colocando-a como peça chave de sua teoria da instrução, ele não a está restringindo obviamente à experiência sensorial bruta. Para ter sentido formativo, a experiência precisa ser muito mais do que aquilo que simplesmente sentimos, ao acionar nossos órgãos sensoriais. Justamente neste contexto que o pedagogo americano faz a distinção entre dois tipos de discernimento, que ao mesmo tempo se configuram em dois tipos diferentes de experiência humana: um mais grosseiro; outro mais refinado. Qual é a diferença entre ambos e no que auxiliam para compreender o pensamento humano?

O discernimento grosseiro ocorre quando o ser humano percebe que certo modo de atuação está conectado com certas consequências, mas não consegue saber como e por que o estão. As experiências humanas são tributárias, em certo sentido, do método do “ensaio e erro”. Isso significa dizer que o ser humano possui a capacidade de iniciar novamente uma ação, em reparo à ação anteriormente fracassada. Este procedimento do ensaio sob o erro torna-se altamente instrutivo, desde que o erro seja devidamente percebido e levado a sério pelo agente. Acontece que a ação que se desenvolve no nível do discernimento grosseiro possui dificuldade tanto de perceber como de aceitar o erro e, por isso, também resiste em fazer novos ensaios.

Mas, o que acontece como o discernimento refinado? É aquele capaz propriamente de pensar, ou seja, de investigar adequadamente a conexão entre a ação e suas consequências. Mais ainda, tal discernimento caracteriza-se pela capacidade de se antecipar, prevendo possíveis consequências da ação em curso. Assim afirma Dewey: “Em outros casos levamos mais adiante nossa observação. Analisamos para ver justamente o que se encontra à disposição para ligar a causa ao efeito, a atividade à consequência. Esta ampliação de nossa visão torna a previsão mais exata e compreensiva”.

Observar é próprio do discernimento humano. Mas há diferentes níveis de observação; há aquele que se mantém na periferia, apreendendo somente a superficialidade dos acontecimentos. Porém, há o discernimento que rompe o nível superficial inicial e atinge a origem que sustenta a relação entre causa e efeito. Este não é, como se poderia imaginar à primeira vista, um discernimento poderoso, sustentado por uma potência divina. É simplesmente o discernimento humano, que refina e aperfeiçoa sua capacidade analítica, no exercício permanente, colado à própria experiência. Discernimento refinado é, portanto, discernimento inteligente porque aprende pela própria experiência, fazendo uso adequado do material que está à sua disposição, a estabelecer a relação causa e efeito entre os acontecimentos.

Qual é a importância pedagógica desta distinção entre dois tipos de discernimento e que papel o discernimento inteligente ocupa na teoria da instrução de Dewey? O próprio Dewey responde esta questão quando afirma que tal distinção e o trabalho pedagógico de formação do discernimento inteligente apresenta o resultado imediato de capacitar o ser humano, ou seja, o aluno, a conquistar o controle prático das coisas. Ora, isso tem a ver com o núcleo da teoria clássica da instrução, que remonta à antiguidade e que é revivida pela Modernidade, sobretudo pela educação natural de Rousseau. Trata-se da teoria que tem como meta primeira introduzir o novo ser em um mundo que lhe é completamente estranho, considerando que tal introdução precisa dar conta da relação deste ser com as pessoas e coisas que imediatamente estão ao seu redor.

Em síntese, a formação do discernimento inteligente possui inicialmente um foco definido: inserir o educando no mundo prático das coisas, visando auxilia-lo para compreender de maneira adequada o seu funcionamento. Tal compreensão acontece na medida em que o educando desenvolve o espírito investigativo e, fazendo uso do material a sua disposição, pergunta-se pela origem das coisas, pelo seu modo de funcionamento e pelas possíveis consequências da conexão que elas mantém entre si.

 * A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

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