Tarso de Castro, um rebelde inesquecível

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Tarso de Castro morreu em 1991, aos 49 anos, pelos excessos etílicos, padrão de todo o bom jornalista nas décadas de 1960/1970. Brilhante, rebelde, guerreiro, mulherengo – verdadeiro galã de cinema – (até com Roberto Carlos disputou os amores de uma linda mulher).

Roberto chorou suas mágoas na antológica canção “Detalhes” (se outro cabeludo aparecer na sua rua/ e isto lhe trouxer lembranças minhas/ a culpa é sua). Adivinhe meu caro leitor, quem era “o outro cabeludo”. O nosso conterrâneo Tarso! O rei foi obrigado a se render ao charme do gaúcho de Passo Fundo.

Agora um documentário vai destacar a trajetória desta figura combativa, boêmia e libertária que marcou a imprensa brasileira nos anos da ditadura militar em publicações como o semanário O Pasquim, do qual ele foi um dos fundadores.

Tarso ainda é referência no meio cultural. Tenho o hábito de ir à Porto Alegre para assistir a shows dos grandes nomes da MPB e, após o espetáculo, conversar com os mesmos nos bastidores. Meu cartão de apresentação é dizer: “sou da terra de Tarso de Castro”. Sobre ele já conversei com Gilberto Gil, João Bosco, Ivan Lins e, mais recentemente, com Caetano Veloso.

Ao dizer que era de Passo Fundo, Caetano chamou seu filho mais velho, Moreno, dizendo: - Moreno, meu filho, este professor é da terra de Tarso, meu grande amigo, já falecido. Aliás, Caetano foi padrinho do ator e apresentador João Vicente, filho único do jornalista.

Os diretores Zeca Brito e Leo Garcia estão em fase final do documentário “A Vida Extra-Ordinária de Tarso de  Castro” (propositadamente foi dado este título de duplo sentido).

 Ele começou no jornal da família, O Nacional, onde se apaixonou pelo tilintar das redações. Tarso foi logo obrigado a deixar de escrever no jornal do seu pai e a sair de Passo Fundo, ao tecer críticas a figuras da sociedade  local, até  então, consideradas  intocáveis.

A Passo Fundo sempre marcada pelo conservadorismo oligárquico perdia um grande talento, mas, com isto, a imprensa  brasileira da época, ganhava  uma  grande estrela. Isto não representou um afastamento definitivo de Passo Fundo. Ao longo dos anos 1960, Tarso voltou por várias ocasiões à redação de O Nacional.

Antes de brilhar em O Pasquim, Tarso teve uma participação decisiva ao lado de Leonel Brizola, em 1961, quando da Campanha da Legalidade, que evitou mais um dos tantos golpes ao longo de nossa conturbada República.

Em 1969, ele começou a sua mais profícua aventura jornalística. Esse foi um ano pesado. Herdou o AI-5, sequestros, prisões, desaparecidos, tortura, exílios. Foi neste contexto que surgiu O Pasquim, que fez do humor e da ironia algo muito sério. Os costumes e o nível de hipocrisia nacional sofreram um abalo. Os generais de plantão ganharam um opositor de peso.

Fiquei imensamente feliz ao saber do breve lançamento do documentário sobre Tarso, com quem tive o privilégio de conviver, embora rapidamente, quando iniciei minhas atividades como radialista, em 1965, na hoje extinta rádio Passo Fundo.

O resgate de sua trajetória é um convite ao reconhecimento de um passado recente, primeiro passo para a certeza de que situações de cerceamento de expressão e seus desdobramentos terríveis, não querer viver nunca mais – embora alguns tentem trazer de volta aqueles tempos sombrios.

Tenho certeza que se Tarso estivesse vivo, possivelmente tentariam proibi-lo de escrever até no jornal da sua família.  Hoje, algumas opiniões, incomodam os conservadores de plantão. São resquícios que permanecem dos obscuros “anos de chumbo”.

A conquista da democracia, do livre trânsito das ideias e opiniões, passa pela trajetória de jornalistas como Tarso de Castro. São lições do passado que nos alertam para o dever de preservar o mais propício regime para  o cultivo dos valores fundamentais da civilização.

Passo Fundo tem a indeclinável obrigação de fazer uma sessão especial, quando do lançamento do documentário sobre a vida de Tarso Castro, sem dúvida, um rebelde inesquecível.

  *A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.


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