O pior Fusca do mundo

Postado por: Júlio César de Medeiro

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O causo que conto hoje se passou com um amigo no final da década de 90. Nessa época ter um Fusca, para a maioria dos brasileiros, não era nenhum motivo de alegria ou status, muito pelo contrário. Mesmo os Fuscas “Itamar”, fabricados entre 93 e 96 eram vistos com certo desdém. Fusca era carro de pobre ou de velho.

Nesse período meu amigo era dono de um pequeno comércio. Como as coisas não iam muito bem, vendeu seu carro, um Chevette seminovo, e investiu o dinheiro na empresa. Passado algum tempo, cansado de andar a pé, de pedir caronas, carros emprestados e ônibus, decidiu comprar outro carro. Optou por um Fusca 1972 azul, que um “amigo” lhe ofereceu. O tal “amigo” elogiou muito o carrinho, falando sobre a economia de combustível (mentira), dizendo que nunca quebrava (mentira), que o antigo dono era muito cuidadoso (mentira) e que o Fusca não precisava de nenhuma manutenção. Era só abastecer e ser feliz (mentira deslavada). O preço não era nenhuma pechincha, mas diante de tantos elogios e predicados, deveria valer a pena. Meu amigo juntou todos os seus trocados e arrematou o Fusca. Nesse ponto do causo ele sempre exclama: “Haaa... se arrependimento matasse...”

De cara já foi preciso trocar a bateria. Logo após, um jogo de pneus. Até aí, tudo bem, coisas normais, pensava meu amigo. Em seguida, na troca de óleo, o mecânico lhe mostrou que o óleo que retirava do Fusca era muito grosso e que havia muita borra de óleo velho, o que indicava falta de manutenção e possível desgaste de peças do motor, o que se confirmou.

Alguns dias mais tarde ficou sem freios, precisando de uma extensa revisão. Em seguida, na primeira chuva que pegou com o Fusca, o limpador de para-brisas faleceu. Para ajudar, o carro se encheu de água, que pingava pelas borrachas do para-brisas e do vigia traseiro e vertia pelo assoalho. Assim meu amigo descobriu que o assoalho do Fusca havia sido remendado com papelão e piche. Depois o banco do motorista quebrou, as maçanetas internas deixaram de funcionar, o vidro da porta do carona só parava fechado com a velha chave de fenda como calço e começaram a aparecer bolhas na pintura por todos os lados.  A essa altura do campeonato o Fusca azul do meu amigo já era chamado de “o pior Fusca do mundo”.

Somando-se a tudo isso, quando passaram-se 3 meses da compra (sim, tudo isso aconteceu em menos de 3 meses) e a “garantia” de motor e caixa expirou, a 4ª marcha não parava mais engatada. O cabo do acelerador arrebentou em plena avenida. As lâmpadas começaram a queimar quase em sequência, uma por dia.

Mesmo assim, com todos os problemas possíveis, o Fusca azul do meu amigo tinha um charme, um carisma peculiar. Era assunto certo em nossos encontros e motivo de ligações para aquela ajuda no meio da noite, quando “o pior Fusca do mundo” quebrava.

Mas a cereja do bolo ainda estava por vir. O que fez com que meu amigo jogasse a toalha e desistisse do Fusca foi uma situação entre hilária e constrangedora. Num sábado qualquer ele precisava ir até a cidade de Carazinho, distante 50 km de Passo Fundo. Seu pai havia viajado com o carro da família, logo, a opção era arriscar-se com o Fusca. Embarcaram ele, a namorada, a irmã e mais um amigo. Abasteceram, fizeram o sinal da cruz e partiram. Na ida, tudo surpreendentemente calmo. Estrada vazia, Fusca sereno e tranquilo em velocidade de cruzeiro. Incrível. Compromisso cumprido, hora de voltar. Logo na saída problemas com o câmbio. A 4ª marcha (que não parava engatada) agora tinha a companhia da 3ª, que só engatava arranhando muito. No meio do caminho acendeu uma luzinha no painel e se descobriu que a correia do dínamo havia partido. Pelo menos essa correia meu amigo tinha para substituir e poder seguir viagem. Mas, chegando em Passo Fundo, perto do trevo da Caravela, tentando reduzir de 3ª marcha para 2ª, eis que meu amigo arranca a alavanca do câmbio e fica com ela solta na mão. O Fusca engatado em 3ª marcha, a alavanca fora do lugar, o carro lotado e um bom trajeto até chegar em casa... Muita embreagem foi gasta naquela tarde de sábado. Muitas buzinadas na Avenida Brasil e 7 de Setembro. Muito stress e apenas uma certeza. O Fusca tinha que partir.

Câmbio arrumado e bolso arruinado, na semana seguinte o Fusca azul partiu para morar em outros pagos. Depois de recompor as finanças meu amigo recomprou seu Chevette e passou muitos e muitos anos declarando sua aversão pelos besouros da VW.

Hoje, após perceber que poderia sim ser feliz com um Fusca, meu amigo virou fã, possui um exemplar e restringe sua aversão somente àquele Fusca azul 1972, considerado como “o pior Fusca do mundo”.

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