O plano Atlanta

Postado por: José Ernani Almeida

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“Deixe um príncipe ter o crédito, e os meios sempre serão considerados honestos... Porque o vulgar sempre é tomado por aquilo que uma coisa parece ser e pelo que vem dela” (Niccolò Maquiavel - 1469-1527).

O expansionismo dos  EUA  na  América  Latina, às  vezes discreto, às vezes pelas  armas, molda de  tal modo a história do continente que historiadores  continuam a ver a mão invisível  da  Casa  Branca  por trás de  cada  obstáculo   criado contra  as forças  progressistas  da região.

Flertar com teorias conspiratórias é algo comum por parte de alguns governos latino-americanos, quando  procuram   justificar  seus problemas domésticos.

Entretanto, é preciso destacar que o sentimento antiyankee não caiu do céu no continente de Simon Bolívar e José  Martí: é fruto  de mais  de  150 anos de ingerência geral, de inúmeros golpes e complôs, manifestações  de uma vontade de  hegemonia  que  passou por diversas  transformações históricas.

Vejamos: os EUA apoiaram ativamente golpes de estado que ensanguentaram a região (Guatemala, 1954; Brasil,1964; Chile, 1973; Argentina ,1976; além das tentativas de invasão à Cuba, 1961  e  República Dominicana,1965). Destacaram agentes e financiaram o material para a Operação Condor, 1975 encarregada de caçar, torturar e executar opositores em todo o mundo. No início deste século, o golpe contra Chávez em 2001, Honduras em 2009, Paraguai em 2012 e, agora, no Brasil, 2016.

A mais nova trama sinistra, iniciada nos EUA, está sendo denunciada pela revista CartaCapital  (24/1/18). Em extensa reportagem a revista mostra que no início de 2012, a cidade de  Atlanta, no sul dos  EUA, foi palco  de uma sinistra  reunião onde estavam presentes  dez  ex-presidentes latino-americanos de inclinação política do centro à direita, para um evento  de  objetivos obscuros.

Na reunião o uruguaio Luis Alberto Lacalle – conta o ex-deputado da República Dominicana, Manolo Pichardo, um progressisa presente na reunião –, disse textualmente: “Como não podemos ganhar desses comunistas pela via eleitoral, compartilho o que segue”.  O que seguia  era  exatamente  o seguinte:

Para derrotar a esquerda na América Latina, era preciso desmoralizar seus líderes com acusações de corrupção, inclusive a familiares, e ataques ao comportamento privado deles. A mídia seria um aliado, nomes de meios de comunicação foram citados. Depois, era converter os escândalos em processos judiciais que acabassem com a carreira dos rivais.

Alguns juízes também tiveram suas graças declinadas. Uau! Pichardo  batizou  a estratégia  de  “ Plano Atlanta”.  Seria   obra de atores   políticos, econômicos   e estadunidenses.

A julgar pelo destino de Fernando Lugo no Paraguai em 2012 e de Dilma Rousseff por aqui em 2016, além das encrencas de Cristina Kirchner na Argentina, de  Rafael Correa no Equador e, evidente, de Lula.

Os apuros de Lula estão exatamente dentro da estratégia exposta na famosa reunião de Atlanta. A imprensa tratou de produzir um noticiário escandalizante e diário contra o ex-presidente, que acabou sendo processado por um juiz  que usou e abusou da mídia.  Coincidência?

A nova versão da Estratégia  de  Segurança Nacional americana, divulgada em dezembro último,  é reveladora: destaca estratégias para dissuadir, coagir e restringir adversários, partindo de medidas anticorrupção”.  A   Lava  Jato   não  se  ajusta  como uma luva  na estratégia  do Tio Sam ?

Mais uma ilação: foi em 2012, que o Brasil passou a fazer parte da denominada  Studentes  for  Liberty, mantida pela  AtlasNetwork, norte americana, sediada em Washington. No Brasil, nela inspirada, surgiu a ELP (Estudantes pela Liberdade), cuja “marca” passou a ser o MBL. Quanta coincidência!

A CartaCapital revela   ainda que  há um ano, em reunião da elite global em Davos, a secretária-geral ibero-americana, Rebeca Grynspan, comentou  que, “ pela  primeira  vez na história, a  América Latina  sabe  o nome  de seus procuradores e juízes, e não dos seus generais”. Uau! É a   comprovação do sucesso  do  Plano Atlanta.  Os   fins  justificam os meios. 

  *A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.


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