A postura ativa exemplar do general

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A reconstrução do capítulo XI de Democracia e Educação permitiu-me chegar a resultados teóricos importantes. O que está em jogo, desde o início, neste capítulo, é a natureza do pensamento humano, mais especificamente da experiência reflexiva, suas implicações ontológicas, epistemológicas, éticas e pedagógicas. A capacidade humana de discernir relações é a primeira definição que Dewey oferece à experiência reflexiva. Na sequência, vincula-a diretamente à simpatia social, fazendo brotar o espírito investigativo da ontologia da incerteza. Como a própria realidade, sobretudo humano-social, é incerta e duvidosa, o mais apropriado é o espírito de investigação e não o da aquisição.

Temos aí noções centrais, embora difíceis, que caracterizam tanto a filosofia social como a teoria educacional de John Dewey. Deste modo, a formação do Self precisa levar em conta a transitoriedade do real e a simpatia social que une e aproxima os seres humanos entre si. Do ponto de vista da teoria educacional, a ideia de instrução, baseando-se na ontologia da incerteza, vincula-se imediatamente não com a aquisição, mas sim com a inquirição. O aspecto principal do ato de educar não repousa obviamente na aquisição de conhecimentos prontos, mas sim na construção permanente de conteúdos em movimento, porque brotam da realidade incerta. Deste modo, formar a postura inquiridora que permite ao aluno compreender a difícil transitoriedade passageira dos acontecimentos é a tarefa principal da teoria da instrução ancorada na ontologia da incerteza.

É uma característica do pensamento de Dewey procurar trazer para o plano concreto suas noções teóricas e os princípios pedagógicos centrais de sua teoria da instrução, os quais ele vai elaborando na medida que avança de um capítulo ao outro, na obra Democracia e Educação. Como escreve boa parte desta obra no auge da primeira Guerra Mundial, toma a figura do general, no capítulo XI, como exemplo para elucidar seus pontos de vista teóricos. Gostaria de reconstruir, na coluna de hoje, os termos em que tal exemplo é tomado, visando precisar ainda mais suas próprias noções teóricas e se inteirar melhor do núcleo de sua teoria da instrução.

A história da pedagogia está marcada pelo recurso à guerra como metáfora para elucidar questões educacionais difíceis. A teoria clássica da instrução, por exemplo, tanto em sua versão grega como propriamente latina, concebe a educação humana como construção da cidadela interior, visando armar o espírito humano contra a invasão das intempéries do mundo. Deste modo, educar é formar a fortaleza interior capaz de resistir aos acontecimentos trágicos do mundo. Quanto mais armado culturalmente estiver o ser humano, mais preparado estará seu espírito para enfrentar as contingências da vida. Ou seja, instrução como armadura é a melhor maneira de preparar o aluno para enfrentar a incerteza da realidade.

No contexto da problematização acerca da natureza da experiência reflexiva humana, Dewey recorre à figura do general primeiramente para tratar da tensão entre a necessidade de se envolver no curso dos acontecimentos e a importância de manter certo distanciamento sobre os fatos, para poder tomar decisões acertadas e definir as estratégias mais eficientes. A tensão vivida pelo general na guerra torna-se paradigmática, deste modo, para compreender a própria tensão da ação humana em situações difíceis, cujas decisões a serem tomadas podem interferir decisivamente no curso dos acontecimentos posteriores. Antes de tudo, a condição do general flagra, aos olhos de Dewey, o partidarismo da condição humana como prova da intensidade da tendência de nos identificarmos com um curso possível de acontecimentos, rechaçando os demais como estranhos

Ou seja, a postura do general, como a de qualquer outro ser humano, não é de forma alguma neutra e imparcial. Pois, como alerta Dewey, a indiferença conduz imediatamente para a imobilidade do pensamento e da ação. Sendo assim, desde o início, a condição de líder do general o envolve na difícil tarefa de ter que tomar decisões e, portanto, de fazer escolhas. O envolvimento com os acontecimentos e, por isso, a parcialidade que daí resulta, é próprio da ação humana, a qual se aguça imensamente em determinadas situações, como é o caso do general no fronte de batalha.

Contudo, sempre há um risco destrutivo iminente no tomar partido diante dos acontecimentos, sobretudo, quando as decisões se deixam orientar exclusivamente por desejos e paixões. Assim assevera Dewey: O general que permite que suas esperanças e desejos afetem suas observações e interpretações da situação existente cometerá seguramente um erro de cálculo. Disso brota um aparente paradoxo, pois se o desejo é o móbil da ação humana, sua predominância dogmática pode conduzi-la à destruição. O ódio mortal que o general possui de seu inimigo, por exemplo, pode fazê-lo desejar sua morte a qualquer preço, pondo em risco a sobrevivência de seu próprio exército. O desafio do general, que é o desafio da própria ação humana em sentido amplo, é o domínio de suas emoções, ou seja, o controle de seus desejos irascíveis. Pois, ação movida por ira está fadada ao desastre.

O segundo momento em que Dewey recorre à figura paradigmática do general é para mostrar o quanto sua participação ativa interessada nos acontecimentos faz toda a diferença. Tal participação precisa evitar tanto a certeza absoluta de suas previsões como a ignorância completa dos acontecimentos. Precisa encontrar o caminho intermediário entre a impossibilidade do conhecimento absoluto sobre o curso dos acontecimentos e a prejudicial ignorância completa do referido curso. Qualquer uma destas duas posições extremadas invalida sua própria condição de comandante geral. O meio do caminho é o discernimento inteligente do curso dos acontecimentos e a previsão sobre seus possíveis desdobramentos. É tal discernimento que baliza a estratégia de guerra do general e que o leva inclusive a recuar, quando for necessário, para poder preservar a integridade física e psíquica sua e de seus comandados.

Dewey caracteriza esta posição intermediária do general da seguinte maneira: Na medida em que está ativamente interessado ou reflexivo, estará ativamente em guarda; dará passos que ainda que não afetam diretamente a campanha, são suficientemente capazes de modificar em algum grau suas ações seguintes. O Importante é, primeiramente, a postura ativamente interessada e reflexiva do general, sendo ela que fundamentalmente faz a diferença na própria condição de general. Pois, a postura oposta, de ser passivo, desinteressado e não reflexivo não é propriamente a condição de um general. Em segundo lugar, é a postura ativa do general que o põe em guarda, preparando-o para a posição de comando que precisa exercer. Estar em guarda significa, deste modo, estar preparado para planejar adequadamente a ação, visando enfrentar as adversidades imprevistas que surgem no campo de batalha. Enfrentá-las com altivez é seu dever de general, fugir à batalha é a maior desonra à sua condição de comandante.     

 Em síntese, a postura do general que o faz angariar respeito como comandante do grupo caracteriza-se por ser ativamente interessada e reflexiva. Engajar-se ativamente na luta, possuindo até mesmo a coragem de doar sua vida, quando for o caso, em nome de seus próprios comandados, caracteriza a postura corajosa do general. Mas, torna-se realmente um comandante em chefe se for capaz de impedir que seus interesses sejam dominados somente por suas paixões imediatas, odientas e irascíveis.

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