À terra o que é da terra

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Histórias envolvendo Fuscas e Padres não são nada incomuns, pois a preferência pelo carro mais amado do mundo era muito lógica. Forte, barato, confiável e muito simples, o Fusca praticamente transparecia humildade e sempre foi sinônimo de serviço. Por isso foi por muitos e muitos anos o carro de 9 entre 10 padres por todo o Brasil, mas sobretudo no interior.

Minha fonte nada confiável me contou que o causo de hoje se passou num desses vilarejos do interior do Brasil, “nos cafundós lá prá lá de donde o Judas perdeu as botas”, no final da década de 70.

O padre da localidade havia sido chamado para realizar a encomendação e o enterro de um fazendeiro muito rico e famoso, benfeitor da paróquia. Mas o padre, muito idoso, estava doente e não podia ir. O jeito foi instruir bem o sacristão e, como este não dirigia, arrumar um motorista para guiar o Fusca da paróquia. Era um Fusquinha já bem judiado e que era mantido só com o básico do básico: gasolina e arame com alicate. Ou seja, estava bem ruim.

A fazenda ficava a mais de 50 km de distância e todo o percurso era de estrada de chão. Ao amanhecer do outro dia, partiram com a intenção de chegar para o almoço e realizar durante os atos fúnebres pela tarde, voltando no mesmo dia.

Mas o motorista arranjado não era lá muito atencioso e mais conversava que prestava atenção no trecho. Mais ou menos pelo meio do caminho acertou um pedregulho na estrada em tal velocidade que Fusca deu um salto, os dois bateram no teto, o besouro velho desgovernado saiu rodopiando numa nuvem de poeira e só parou quase tombado em uma valeta rasa. Sem mais que um galo na cabeça, os dois saíram ilesos. Mas o Fusca ficou mais estropiado que já era... todo um lado amassado, um pneu furado e um farol quebrado. A porta do carona nem abria mais. Além disso, a bateria havia sido arrancada de seu berço e um dos cabos havia rompido.

Trocado o pneu, restava emendar o cabo da bateria para fazer o Fusca ligar, mas não tinham ferramentas. A solução foi sacar o banco traseiro e o sacristão espremer-se e contorcer-se de forma a conseguir encostar a ponta do cabo partido no polo da bateria. Assim o Fusca deu partida, conseguindo sair da valeta e voltar para a estrada berrando a todo pulmão pelo escapamento rasgado. Mas a cada solavanco o cabo perdia contato com o polo e o Fusca morria. Nessa função de anda e para, anda e para, chegaram ao destino só ao final da tarde. Por óbvio que o morto já havia sido sepultado. Como já era noite alta, pernoitaram na fazenda.

O sacristão, muito constrangido pelo enorme atraso, resolveu perguntar durante a janta sobre como haviam sido feitos os atos fúnebres. Visivelmente incomodada, a viúva respondeu: “Rezamos um Padre Nosso e eu disse: ‘À terra o que é da terra.’ Depois enterramos”.

Ao raiar do dia acordaram de sopetão com o ronco do Fusca no terreiro em frente à casa. O capataz havia consertado o cabo da bateria e a viúva lhes desejava uma boa viagem de retorno.

Alguns meses depois a pobre foi até o padre, aflita e nervosa, pedindo que fossem rezadas missas pela alma do falecido, pois a estava assombrando. Que volta e meia sonhava com o marido, que lhe tentava dizer alguma coisa, mas ela não entendia e ele desaparecia, a deixando muito assustada.

Então muitas missas foram rezadas pela alma do falecido, por muito tempo. Até que um dia a viúva voltou a visitar o padre velho.

Contou que havia finalmente conseguido entender o que dizia o marido morto nos seus sonhos: “não deixe o padre se atrasar, não deixe o padre se atrasar”.

E por isso ela havia comprado um Fusca novinho em folha e estava entregando para o padre, para que nunca mais se atrasasse para um enterro.

Me contaram isso por verdade! O que você acha?

 *A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

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