O problema da fragmentação da instrução escolar

Postado por: Cláudio Dalbosco

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No capítulo XI de Democracia e Educação Dewey concentra esforços para justificar a noção de experiência reflexiva, mostrando sua importância para a ação humana e à vida social mais ampla. Vinculando-a ao espírito investigativo e à simpatia social, torna-a mola propulsora também da educação. No capítulo XII da referida obra ele aprofunda estas intuições, relacionando a experiência reflexiva diretamente à teoria da instrução, atribuindo como tarefa principal da escola a formação de bons hábitos de pensar. O que significa experiência reflexiva como hábito de pensar? Que traços os hábitos de pensar atribuem à instrução escolar? Com estas questões eu gostaria de me ocupar na sequência, tanto na coluna de hoje como na próxima coluna.

Para que a instrução escolar possa ocupar-se adequadamente com a formação de bons hábitos de pensar, a escola não pode se basear em uma teoria fragmentada da instrução, tratando das capacidades humanas desconectadas da ação humana, da condição humana e da concepção de sociedade. Além disso, precisa ser capaz de traduzir os resultados de tal investigação para o campo pedagógico, especialmente para o âmbito da organização escolar, cujo foco é a estrutura curricular e o modo como tal estrutura se ramifica no cotidiano escolar.

Desde o início, o grande problema a ser enfrentado é a fragmentação da instrução em várias finalidades desconectadas entre si. Em que consiste tal fragmentação e como ela pode ser enfrentada? Dewey atribui à instrução três dimensões interconectadas entre si: a aquisição de habilidades, como ler, escrever, desenhar e recitar; a aquisição de certos conhecimentos informativos, como história e geografia e; por fim, o cultivo do pensamento, ou seja, o próprio exercício de pensar, o qual contém em si as duas outras dimensões. Ou seja, para que aconteça o pensamento no interior da escola, ele precisa contar com o desenvolvimento equilibrado destas três dimensões; para que ocorra o cultivo do espírito, capacidades precisam ser desenvolvidas em conexão com a aquisição de conhecimentos. Como fazer isso, é o grande desafio de uma instrução escolar consequente e atualizada, que visa formação ampla e integral dos alunos.

Isso significa dizer, por um lado, que não se aprende ler e escreve corretamente de maneira isolada. O exercício do aprendizado da leitura, por exemplo, pressupõe levar em consideração o universo cultural do aluno e a escolha de textos adequados, com linguagem simples, que façam sentido para o próprio aluno. A leitura não é um ato mecânico de mera pronuncia de letras e palavras, mas sim um ato compreensivo, que exige interpretação do leitor, por mais mínima e simples que seja, em seu início. Por meio da leitura o aluno inventa-se a si mesmo, cria seu próprio Self, desde que a leitura atinja o nível interpretativo mínimo. Quando atinge tal nível, ela se torna, então, verdadeiro exercício de pensar.

O mesmo ocorre, por outro lado, com a aquisição de conhecimentos informativos. Ao colocar tal aquisição como forma importante de cultivo do pensamento humano, Dewey filia-se a mais alta tradição do Iluminismo moderno. A própria instrução escolar moderna atribui peso decisivo ao estudo da história e da geografia. Compreender sua origem é importante para o aluno saber que ele é, como vive no momento presente e, sobretudo, o que almeja para seu futuro. Também, saber onde vive, qual é o espaço social e natural que ocupa, é indispensável para poder definir seu projeto de vida, escolher suas companhias e construir boas relações de convivência com os outros e com o ambiente.

Rousseau, em seu Emílio, grande obra pedagógica da Modernidade, atribui papel formativo indispensável ao estudo da história humana. Seu aluno fictício deveria ser introduzido lenta e progressivamente no conhecimento da história, principalmente da história antiga. Deste modo, o estudos dos feitos de grandes personagens históricas auxilia Emílio a compreender as potencialidades e fraquezas que constituem a condição humana e que interferem na formação do caráter moral. Rousseau queria dizer com isso que a virtude das ações humanas eram fruto de condutas ambíguas, marcadas pela vulnerabilidade humana e não por um ser humano perfeito ou que pudesse buscar sua perfeição de maneira cabal e completa. Não existe perfeição, o que existe é a perfectibilidade, ou seja, a capacidade humana se aperfeiçoar infinitamente e o estudo da história é o meio de fazê-lo. Tudo isso Emílio precisaria aprender para poder formar-se a si mesmo e viver em sociedade, na companhia solidária dos outros.

Como se pode ver, o desenvolvimento das capacidades humanas e a aquisição de conhecimentos informativos, embora não seja algo simples, tornam-se decisivos para formar adequadamente o aluno. Compreendidos de maneira orgânica, possibilitam o exercício de pensar e, por isso, constituem o âmago de uma teoria da instrução. Sua fragmentação, como ocorria na época de Dewey e como continua a ocorrer em nossa época, torna-se um dos grandes pesadelos da instrução escolar.

Em síntese, a teoria da instrução torna-se consequente na formação do aluno na medida em que consegue conectar organicamente o desenvolvimento de capacidades com a aquisição de conhecimentos informativos. Quando consegue fazer isso, ela cria o ambiente pedagógico adequado para que ocorra a formação de bons hábitos de pensamento. O que significa bons hábitos de pensamento e como a teoria da instrução escolar pode formá-los? Esta é a questão a ser tratada na próxima coluna.  

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

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