Carnaval rima com denúncia e resistência

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A politização foi a marca deste carnaval. O protesto surgiu ao som dos tambores, nos figurinos e nos enredos. As rimas mostraram a repulsa popular diante de um governo que tenta burlar a democracia e por fim aos direitos dos trabalhadores.

A maior festa popular do país foi um protesto. Tanto blocos, como as escolas de samba, em cada canto do país, retrataram o cotidiano do Brasil de diferentes formas, mas com a mesma indignação.

Mas foi no sambódromo no Rio de Janeiro que a denúncia ganhou o país e mostrou, em rede nacional toda realidade política e social da nação. A Marquês do Sapucaí foi o palco de um protesto diferente, inusitado e inesperado.

A Paraíso do Tuiuti mostrou todas as facetas que envolveram o Golpe. A atuação lavou a alma do povo brasileiro. Deu uma aula na Marquês de Sapucaí. Contou a história da escravidão. Em seguida questionou a extinção deste sistema brutal, que acorrenta e explora os brasileiros, com o enredo “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”.

Deu voz para quem já desacreditava no poder do seu grito. Encheu de esperança aqueles que tentam gritar, mas sentiam-se fracos e intimidados. A Tuiuti enfrentou o sistema. Criticou o uso do trabalho escravo, a corrupção, a reforma trabalhista e da previdência. Mostrou de forma precisa e didática a manipulação da classe média pela mídia.

Trouxe os patos da Fiesp e os paneleiros, que após o golpe, desapareceram. Trouxe o retrato de um presidente golpista, simbolizado como um vampiro. Mostrou, por meio da arte, o sofrimento, a angústia, o desespero diante do desemprego, da violência, do abuso e da morte.

A Tuiuti desnudou as origens da exploração e das desigualdades. Uma escola que desfilou pelo segundo ano consecutivo no grupo especial, não teve medo de mostrar a angústia de um país que abriga 13 milhões de desempregados.

A escola teve a coragem de mostrar a realidade brutal de uma nação que sofre com o fim das políticas sociais, que entrega a soberania e perde direitos conquistados. Tuiuti é a campeã do povo. Tuiuti soltou o grito sufocado de Fora Temer daqueles que assistiam a apresentação, daqueles que acompanhavam em casa e nas redes sociais.

O enredo carnavalesco ganha a narrativa de um contexto social conturbado, frágil e mergulhado no medo e na incerteza. A Tiuti não esteve sozinha, a Beija-Flor e a Mangueira também trouxeram o tema, porém, com abordagens diferentes. Mas foi a Tuiuti que trouxe o combate à corrupção na ótica de uma narrativa adotada pela elite corrupta, que se apodera deste tema para manipular a sociedade.

A Tuiuti trouxe o grito de resistência à escravidão econômica, política e social. Quase foi sufocada, quando teve três vezes menos tempo de cobertura televisiva, em relação as outras escolas. Teve sua manifestação artística cortada e não exibida na reprise, mas foi aclamada por aqueles que acreditam na construção de uma nova realidade.

Esse é o momento de refletir e de questionar, afinal, até quando vamos ser escravizados? Até quando vamos ser manipulados? Esse é o momento de resistir. Podemos, juntos, construir uma nação desenvolvida e soberana.

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

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