Hábitos de pensar: crítica ao hábitos rotineiros e à conduta autoritária

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

A instrução escolar tem como meta maior a formação de bons hábitos de pensar. Iss Dewey defende, logo no começo do capítulo XII de Democracia e Educação. Para que possa alcança-la, a escola não pode se basear numa teoria fragmentada da instrução. Não pode focar só nas capacidades humanas, querendo desenvolvê-las, desconectadas da teoria da ação humana, da ideia de condição humana e da concepção de sociedade. Em síntese, a formação de bons hábitos de pensar depende da investigação do vínculo entre ação humana, condição humana e sociedade. Além disso, precisa ser capaz de traduzir os resultados de tal investigação para o campo pedagógico, especialmente para o âmbito da organização escolar, cujo foco é a estrutura curricular e o modo como tal estrutura se ramifica no cotidiano escolar.

Estes resultados inicias do capítulo XII podem ser questionados: quando pensada nesta perspectiva, a escola não estaria assumindo para si uma tarefa grandiosa, irrealizável? Por que não é suficiente que ela se concentre no desenvolvimento de competências e habilidades? E, o mais importante, o que acontece com a escola e com os alunos, quando ela se concentra só nisso? Dewey tem consciência dos enormes prejuízos à formação dos alunos e à formação humana em geral, quando a escola se concentra apenas no desenvolvimento de aptidões (capacidades), desconectadas do hábito de pensar. Ou seja, querer desenvolve-las dissociadas do hábito de pensar significa privar os alunos da possibilidade de realizarem experiências inteligentes.

A instrução centrada no desenvolvimento de capacidades, sem associá-las ao hábito de pensar, deixa os alunos e o próprio ser humano, como afirma textualmente Dewey, à mercê de seus hábitos rotineiros e da direção autoritária de outros. A consequência é grave, pois movida nesta direção, a instrução escolar mantém o aluno prisioneiro de sua própria rotina, entregando-o à condução autoritária de outros. O que há de negativo nos hábitos rotineiros que precisam ser enfrentados pedagogicamente e como fazê-lo? De outra parte, o que significa condução autoritária e como enfrenta-la? Temos, com isso, duas tarefas centrais à instrução escolar que possui como meta maior formar bons hábitos de pensar.

Começo pela primeira questão. Os hábitos rotineiros são o ponto de partida tanto da filosofia como da pedagogia. Eles constituem o mundo humano espontâneo, carregando certezas ingênuas e seus riscos dogmatizantes. Possuem caráter profundamente ambíguo: assim como apresentam lances avançados, que vão além da clausura de seu mundo, também fecham-se arrogantemente nele, acreditando ser seu ponto de vista a melhor de todas as verdades. Por isso, devido à sua ingenuidade dogmática, os hábitos rotineiros precisam de formação.

Qual é exatamente a posição de Dewey referente aos hábitos cotidianos? Ele não se filia obviamente àquela vertente iluminista que desconsidera por completo o cotidiano humano porque o concebe como símbolo do erro e da ilusão, atribuindo apenas à filosofia ou à ciência a forma exclusiva do conhecimento válido. Dewey não é um positivista otimista, como muitos intelectuais de sua geração e de gerações anteriores o foram. Ao contrário, segundo ele, filosofia e pedagogia nascem da relação com os hábitos cotidianos, e não de sua simples destruição. A própria ciência também encontra nos hábitos cotidianos o solo fértil de sua origem.

A pedagogia só faz sentido, como saber sistematizado, porque é reflexão elaborada das mazelas inerentes aos hábitos cotidianos. Para compreender isso é preciso considerar o duplo significado de hábito no pensamento de Dewey. Em sentido geral, o hábito é constitutivo da ação humana, pois é por meio dele que o ser humano torna-se ser ativo, capaz de pôr-se em movimento, atribuindo significado ao que faz ou deixa de fazer. No hábito humano há sempre um nível mínimo de racionalidade, que assume a forma de repetição, permitindo a continuidade da ação. Há o nível mais simples de repetição que acontece de maneira quase mecânica, sendo característico do hábito cotidiano. Mas há também o nível de repetição reflexiva, que dá origem aos bons hábitos de pensar. Ela também está presente nos hábitos cotidianos, mas atinge sua profundidade fora dele.

Volto-me agora para a segunda questão, ou seja, à conduta autoritária. Seu enfrentamento é decisivo para Dewey, pois de tal enfrentamento depende o sentido democrático que ele atribui à educação. Ou seja, para que a educação torne-se democrática, é preciso recusar decididamente qualquer forma de autoritarismo, impedindo-o de ser postura definidora da ação humana. O que há de tão pernicioso no autoritarismo? Ele simplesmente poda a condição humana participante, voltada para o autogoverno individual. Quem assume postura autoritária impede que o outro cresça ou quem se deixa orientar autoritariamente pelos outros, torna-se adestrado, sem vida própria.

É justamente neste contexto que o trabalho pedagógico sobre os hábitos rotineiros assume importância, uma vez que tais hábitos carregam o aspecto dogmático que facilmente se alia com o autoritarismo. Daí emerge também a importância do trabalho formativo próprio à instrução escolar, de transformar os hábitos cotidianos em bons hábitos de pensar. Isso acontece, como ainda veremos, quando a instrução escolar toma a experiência de mundo do aluno como ponto de partida e busca elevá-lo ao nível da experiência inteligente, capaz de autocrítica e aberta à mudança. A transformação de hábitos cotidianos em hábitos de pensar possibilita que as pessoas se tornem mais livres e as instituições mais democráticas. Daí a importância da instrução escolar para a formação de hábitos de pensar.

O que é, no fim de contas, o hábito de pensar? Dewey o considera como o método de reflexão inteligente, ou seja, como aquele capaz de formular hipóteses sobre a realidade e coloca-las permanentemente em prova. Por isso, o hábito de pensar brota do espírito investigativo e torna inteligente a experiência humana. O hábito de pensar é ele próprio um método, que toma os hábitos cotidianos como ponto de partida, buscando elevá-los à condição reflexiva. Contudo, tal hábito não se reduz ao procedimento científico; ele é atitude social, com conteúdo ético e político, entrelaçando-se e com a simpatia social.

Em síntese, a formação de bons hábitos de pensar torna-se importante à instrução escolar porque é por meio deles que o aspecto dogmático e autoritário dos hábitos cotidianos são enfrentados. Como são hábitos cotidianos que os alunos trazem ao entrarem para a escola, é sobre eles que o currículo escolar precisa incidir. Não simplesmente negando-os, pois isso significaria a destruição do universo cultural dos alunos, mas sim os transformando em hábito de pensar. A grande questão da instrução escolar é criar métodos de ensino e pensar na organização curricular que proporcionem a transformação dos hábitos cotidianos em hábitos de pensar.

Leia Também Reconhecer o erro, pedir perdão, sinal de grandeza! O Mecanismo! Pace Sistema elétrico do Fusca