O dia em que mataram um Fusca raro

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Seu Carlos (nome fictício) é vizinho de um amigo. Regularmente visito esse amigo e seu Carlos é presença certa, debruçado sobre o muro baixo que separa os pátios. De fala solta e humor fácil, o velhinho magro é daquele tipo que não importa o assunto, ele o viveu. Guerras, pescarias, viagens, naufrágios, doenças, filhos, mulheres, carros, política, religião... Não importa – seu Carlos sempre tem uma história para contar sobre o assunto que estamos conversando em que o personagem principal é ele mesmo.

Lembro-me de uma das primeiras vezes que conversamos e que o seu Carlos contou que, por óbvio, também havido tido um Fusca.

Disse que comprou o Fusca já usado, com sete ou oito anos em 1970, mas muito bem conservado pelo antigo dono que só saía com o carro para ir à missa. Caprichoso que era  seu Carlos logo tratou de “modernizar” o Fusca.

A primeira providência  foi arrancar e jogar fora o motor original para instalar um novo motor de 1500 cilindradas, o melhor da época.

Depois o Fusca foi para a chapeação para livrar-se daquela cor horrível, uma espécie de azul desmaiado. Mandou pintar de vermelho vivo. Os faróis olho de boi e as lanterninhas traseiras, muito ruins apesar de originais, foram trocados, juntamente com os para lamas, pelo conjunto do Fuscão da época, muito mais bonito, conforme o seu Carlos.

As rodas do fusquinha, com aqueles pneus finos, deu de presente para o Borracheiro, pois substituiu por rodas novas, mais largas e menores, com pneus balão, bem como os playboys do Rio de Janeiro usavam.

O interior também era de muito mau gosto, segundo o seu Carlos, com umas cores parecidas com o azul da lataria por tudo, até no volante. Contratou o melhor tapeceiro da cidade, tal João Dal Bianco, para fazer tudo novo em couro branco e vermelho, um luxo. Instalou um volante novo bem pequeno, além de ter trocado o escapamento original, “aquelas flautinhas que ficam assoviando”, por um esportivo Kadron com saída lateral.

Mas o toque final da modernização do besouro foi o rádio toca-fitas da CCE comprado em 12 prestações na JH Santos. O lugar do rádio no painel do Fusca ainda era fechado e tiveram de cortar um pouco mais a abertura para que o rádio coubesse, além de cortarem também os painéis novos das portas para colocar os alto-falantes.

Terminou a história contando que o Fusca ficou tão lindo e que chamava tanto a atenção por onde passava que começou a receber propostas para vender em todos os lugares aonde ia. Incomodado com o assédio, vendeu o Fusca por uma pequena fortuna para um fazendeiro muito rico que morava para os lados de Soledade.

E foi assim que o fictício seu Carlos nos contou, faceiro numa tarde quente de sábado, como matou um raríssimo Fusca monocromático azul pastel de 1962.

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