Instrução pela experiência

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Do ponto de vista educativo há uma relação umbilical entre hábitos de pensar e instrução integral, não fragmentada. Há, por assim dizer, um círculo vicioso entre o pensamento que impede a instrução de ser fragmentada e a própria instrução que, dependendo de sua qualidade, auxilia decisivamente para a formação de bons hábitos de pensar. Como vimos, a instrução fragmentada é, segundo o diagnóstico de Dewey, um dos principais problemas da educação contemporânea, impedindo a educação formal, universidade e escola, de desempenhar sua tarefa formativa primordial.

Como aparece a fragmentação da instrução no âmbito da educação formal? Ela toma forma concreta na organização curricular baseada em disciplinas. Esse é um problema cuja origem remonta à própria fragmentação da ciência moderna; quanto mais ela se especializa, mais se fragmenta e, com isso, perde a capacidade de construir a perspectiva abrangente. A fragmentação da ciência sustenta a própria fragmentação do conhecimento em disciplinas como, entre outras, história, filosofia, matemática, português.

Geralmente, o modo como as disciplinas são concebidas no currículo escolar e como são trabalhadas pedagogicamente oferecem a formação estanque, compartimentalizada. Elas dão a ideia ao aluno de que cada disciplina constitui um universo a parte, uma não tendo nada a ver com a outra. A disciplina de história, por exemplo, é trabalhada como se não tivesse nada a ver com o aprendizado de línguas, o qual (tal aprendizado) também é tratado como se estivesse completamente desconectado da compreensão humana e social mais ampla. O resultado disso é a formação do especialista que conhece muito do pouco, mas sem a noção geral sobre o mundo, ser humano e sociedade.

A reivindicação de Dewey por uma instrução integral pretende romper com este cenário educacional baseado na fragmentação disciplinar. Para avançar neste tema, ele introduz o princípio metodológico talvez mais importante de sua teoria da instrução, a saber, a experiência como ponto de partida da formação do hábito de pensar. Ou seja, a instrução escolar só consegue promover efetivamente no aluno o hábito de pensar quando levar à sério a experiência de mundo dos sujeitos educacionais envolvidos no processo pedagógico. Deste modo, a experiência faz inicialmente a mediação entre instrução e hábito de pensar, tornando virtuoso o círculo existente entre eles.

Por quê Dewey formula o princípio pedagógico de partir da experiência de mundo dos sujeitos educacionais, principalmente do aluno? Ele chega a tal princípio não obviamente por ter visto na experiência o império sacrossanto de todas as verdades. Justifica, como ainda deixarei claro, um conceito complexo de experiência que precisa ser bem investigado. Não a reduz à esfera das percepções sensíveis, mas conectada diretamente à ação humana no sentido mais amplo, envolvendo-a com a atividade intelectual e não só com a atividade sensorial.

Em todo o caso, formula o referido princípio pedagógico como crítica ao intelectualismo pedagógico que dominava o cenário escolar do início do século XX, lançando suas raízes na pedagogia jesuíta e no método escolástico decadente de ensinar. Tal método considerava pouco a experiência do aluno porque partia equivocadamente dos conceitos, sem se preocupar com sua vinculação empírica. Partindo de meros conceitos, atribuía soberania inquestionável ao papel do professor, dando-lhe poderes ilimitados ao mesmo tempo em que reservava ao aluno a posição de mera passividade.

Portanto, contra o intelectualismo pedagógico, Dewey coloca a experiência como ponto de partida da formação do hábito de pensar. Que significação atribuí à experiência? Agora chegou o momento de enfrentar esta questão, certamente uma das mais difíceis do pensamento deste autor. No contexto do capítulo XII a experiência assume várias significações que precisam ser acompanhadas de perto. Inicialmente, é preciso considerar criticamente o sentido limitado que o intelectualismo pedagógico atribui à experiência para, em nome disso, sobrevalorizar as atividades intelectuais do espírito humano. Tal intelectualismo reduz a noção de experiência à esfera dos sentidos e apetites, ao simples mundo material, opondo contra ele coisas propriamente espirituais. Deste modo, descaracterizava a experiência em nome da suposta nobreza das atividades espirituais.

Contra esta definição intelectualista de experiência, que à reduz simplesmente à esfera das impressões sensíveis, Dewey opõe outra noção, vinculando a experiência humana diretamente à ação humana. Assim afirma ele: A experiência tem o sentido com que já foi definida: tentarmos fazer alguma coisa e essa coisa fazer-nos perceptivelmente outra em seu retorno.  Ou seja, experiência significa o encadeamento de ações, no sentido de que uma ação dá origem à outra. Há início, meio e fim que se implicam mutuamente e se renovam permanentemente. Deste modo, a compreensão adequada da ação conduz à capacidade de prever acontecimentos futuros e precaver-se sobre seus possíveis efeitos.

Por isso, compreendida neste sentido, a experiência não tem a ver somente com percepções sensíveis; ela já é em si mesma, uma atividade intelectual inerente à ação humana que implica, em sua condição qualitativa, ou seja, inteligente, observação, previsão e antecipação da ação. Como atividade intelectual singular, pois está organicamente vinculada à ação, a experiência brota dela e se desenvolve com ela. Sendo assim, a experiência potencializa o aprendizado do aluno e consegue fazê-lo quando torna-se formativa para ele.

Mostrar-se que há um sentido formativo inerente à experiência humana pedagógica, ou seja, àquela experiência que acontece no âmbito da educação escolar, torna-se crucial à teoria deweyana da instrução. E, como veremos na próxima coluna, o emprego de materiais, o uso formativo que o aluno pode fazer de materiais é um dos principais mecanismos para tornar a formativa sua própria experiência. Mas isso não depende somente do aluno; mas sim de uma ampla teoria da instrução que envolva a escola como um todo, especialmente o trabalho formativo do professor.

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