O uso formativo de materiais

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Na época em que Dewey escreveu Democracia e Educação, no início do século XX, predominava, no âmbito da educação escolar, o intelectualismo pedagógico. Tal intelectualismo consistia em uma visão de ensino centrada na memorização do conteúdo, implicando exclusividade às atividades intelectuais, em detrimento do exercício de expressões corporais. A imagem clássica do ensino intelectualista é a dos alunos sentados em fileira, um atrás do outro, olhando para frente, e todos sob o olhar controlador do professor. Enquanto os alunos só possuíam uma direção para olhar, proibidos de virar para o lado, o professor, na frente, sentado ou em pé tinha a todos sob seu ângulo de visão.

Dewey introduz o princípio do aprendizado pela experiência, focando no manuseio de materiais. Na verdade, este princípio não é uma invenção exclusiva dele, pois fora criado ainda na Modernidade, no século XVIII, sendo uma das ancoras do projeto educacional esboçado por Rousseau no Emílio. Antes de tornar-se um cidadão no sentido pleno do termo e antes mesmo de receber uma educação moral mais detalhada e consistente, Emílio, o aluno fictício do romance pedagógico, deveria aprender um ofício, dedicar-se a uma atividade prática que implicava no aprendizado pelo manuseio de materiais.

Pelo crescente desenvolvimento tecnológico, este aprendizado pelo manuseio de materiais foi sofrendo profundas transformações. No contexto educacional atual, ele foi substituído pelo manuseio da tecnologia digital, especialmente pelo manuseio do computador conectado à internet. Saber como e em que sentido o educando forma-se manuseando a tecnologia digital e quando, em determinados contextos de uso, ele se deforma e vez de se formar, é uma questão educacional de primeira grandeza. É a versão atualíssima da formação humana pelo manuseio de materiais.

De qualquer forma, a educação pragmatista contemporânea, em sua versão deweyana, centra o ensino no emprego adequado de materiais. Os materiais tinham significação ampla, abrangendo desde a matéria bruta a ser lapidada, até figuras elaboradas matematicamente, na forma geométrica. Se o uso de matérias torna-se assim tão indispensável, onde repousa então seu aspecto formativo? Por que uma moderna teoria da instrução implica o manuseio adequado de materiais? Por que o pragmatismo americano viu nesta invenção moderna algo a ser mantido e aprofundado no processo pedagógico?

Dewey destaca dois aspectos importantes: primeiro, fazer alguma coisa com materiais e; segundo, deixar-se orientar pelo princípio “experiência e erro”. O primeiro aspecto pressupõe que é o movimento dos alunos, ou seja, a ruptura de sua condição de mera passividade, que o torna capaz de aprender algo. Se o ensino, como já haviam mostrado Herbart e outros pedagogos anteriores a Dewey, não se tornar interessante ao aluno, não há aprendizagem. Ao se interessar pelo tema de estudo, o aluno torna-se curioso para buscar mais. Ora, o contato com as coisas, o trabalho do aluno com materiais, torna-se a maneira mais eficiente de ativá-lo, mobilizando-o para o aprendizado. Deste modo, escolher materiais pedagogicamente mais adequados torna-se importante para que a instrução tenha êxito. Mas isso não é suficiente. É preciso desenvolver a postura adequada para tratar o material.

Ora, o princípio metodológico “experiência e erro” constitui o aspecto nuclear desta postura adequada. Como princípio oriundo da ciência moderna, possui um sentido experimental claro: a descoberta do real, o conhecimento da lógica de funcionamento das coisas, depende de um modo de experimentação das mesmas, baseado na observação metódica o no teste frequente. Observar e testar descortinam o universo das coisas. A observação orienta o olhar para as coisas; o teste permite aperfeiçoar a própria observação, na medida em que possibilita identificar as falhas e os erros da observação feita.

Dewey resume o procedimento da seguinte maneira: Um indivíduo deve experimentar, nos jogos ou no trabalho, fazer alguma coisa com determinado material, dando realização aos impulsos da sua própria atividade, e observar então a interação da sua energia com a do material empregado. O que se vê aqui, pela passagem, é inicialmente um sentido espontâneo, não metodicamente orientado de experimentação. Pois, experimentar pelo jogo tem o sentido livre e aberto que se diferencia do experimentar disciplinado, orientado por passos metódicos, previamente estabelecidos. Com isso fica claro, que o importante é, para Dewey, do ponto de vista formativo, que primeiramente o aluno experimente livre e criativamente por meio do uso de materiais.

O segundo aspecto importante da passagem do texto de Dewey que acabei de citar refere-se à premência de “fazer alguma coisa”. O aprendizado só ocorre na medida em que o educando for colocado na situação de ter que se pôr em movimento, fazendo algo. “Fazer algo” torna-se o cavalo de batalha contra a ideia de passividade pressuposta pelo ensino escolástico, assentado no binômio transmissão-memorização do conteúdo escolar. Como lema, resume o núcleo da condição humana ativa e participante. Além disso, o “fazer algo” é a forma de materializar os impulsos da própria atividade, ou seja, de alcançar os objetivos pretendidos pelo manuseio de materiais.

Por fim, há o terceiro e último aspecto da passagem citada que se refere à interação da energia dispendida pelo educando ao realizar a atividade com o próprio material empregado. O que significa isso?  No modo tradicional de educação, uma vez que a relação mais fundamental ocorria entre o aluno e o conteúdo transmitido, a interação permanecia num universo bem restrito, correspondendo ao educando isolado com o conteúdo na forma de texto, quer seja como livro ou simplesmente como o que é ditado pelo professor. Outro aspecto fundamental é a limitação da própria energia à atividade intelectual, ou seja, o que contava como válido pedagogicamente eram as capacidades cognitivas, como memória e entendimento, relacionadas a destreza de observar, analisar e deter informações.

A noção própria de energia amplia-se no sentido pragmatista porque há a valorização da dimensão corporal e sensível do ser humano. Isso abre outras possibilidade para a formação da capacidade imaginativo-criativa do aluno por que o mundo das coisas se amplia e porque a própria condição humana é vista de outro modo, não só como uma entidade racional aparelhada por capacidades cognitivas, mas como um grande organismo que sente ao mesmo tempo que age, falando e pensando. Muda também, neste contexto, o próprio sentido de interação, uma vez que engloba múltiplas energias e um universo ampliado de coisas.

Como se pode observar, a postura experimental pressuposta aqui vai muito além do que o procedimento rigorosamente disciplinado por passos postos previamente, de maneira fechada, antes da própria experiência. Trata-se da ideia de instrução que se orienta pela espontaneidade e criatividade da ação humana.  

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

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