Instrução escolar como resolução de problemas

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O núcleo da teoria moderna e atualizada da instrução escolar repousa, segundo Dewey, na formação de bons hábitos de pensar. Não se aprende a pensar só ativando as capacidades intelectuais e só se concentrando no exercício e manuseio de conceitos. Quando a instrução escolar se restringe a isso, além de se tornar desinteressante ao aluno, não consegue formá-lo para a vida, ou seja, para a convivência solidária e simpática com o mundo. A instrução precisa estar ancorada na experiência, tomando o universo cultural dos alunos como ponto de partida. Ainda mais, ela necessita, do ponto de vista metodológico, colocar o aluno em contato frequente com as coisas, propiciando-lhe despertar sua curiosidade e seu espírito investigativo pelo manuseio de materiais concretos. Com isso, o aluno pode transformar, por exemplo, objetos físicos brutos em figuras geométricas, construídas matematicamente.

Este é um aspecto importante da teoria da instrução escolar de Dewey que visa à formação de bons hábitos de pensar. Mas, se tal teoria terminasse aí, ela estaria muito incompleta. O pedagogo americano amplia, aprofundando-a, na medida em que a vincula à resolução de problemas. Ou seja, segundo ele, o que dá conteúdo formativo à experiência, tornando-a fonte de aprendizado humano, é a qualidade do problema nela implicado. Sendo assim, colocam-se de imediato algumas questões: em que consiste a instrução baseada na solução de problemas? O que é, do ponto de vista formativo, um problema e onde repousa sua qualidade? Tratar destas questões significa dar um passo adiante importante na compreensão da teoria da instrução de Dewey.

Nem todos os problemas são iguais e, por isso, não possuem de per se a qualidade formativa requerida. Além disso, sua qualidade também depende do modo como são apresentados pedagogicamente ao aluno e o modo como o próprio aluno os compreende e busca solucioná-los. Por exemplo, o problema pode ser apresentado de tal forma que a solução já se encontre previamente, inibindo a curiosidade inquiridora do próprio aluno. Por isso, torna-se importante não só distinguir os problemas entre si, como também pensar nos diferentes modos possíveis de solucioná-los. Tudo isso precisa ser descortinado ao aluno de maneira pedagógica, isto é, formativa.

Dewey aponta para duas referências que podem auxiliar na distinção entre problemas autênticos e pseudoproblemas. A primeira diz respeito à origem do problema: ele nasce da experiência pessoal do aluno, apresentando-se naturalmente por si mesmo, ou é simplesmente imposto pelo programa escolar? Conduzem à observação e experimentação fora da escola ou restringem-se somente ao ambiente da sala de aula? Tal referência, orientada por estas duas questões, põe a exigência, para que o problema assuma a qualidade formativa requerida, que ele esteja conectado com a experiência de vida do aluno. Se não atender este critério, assume muito rapidamente a dimensão meramente formal.

A segunda referência relaciona-se ao conteúdo do problema: é pensado visando torna-se um problema do próprio aluno ou apenas como forma de obter respostas visando só a atribuição de nota? Coloca-se aqui, novamente, a insistência no vínculo entre conteúdo escolar e experiência pessoal do aluno. Este é uma aspecto decisivo do problema, para que possa adquirir a dimensão formativa exigida. Desvincular o conteúdo escolar do mundo experiencial e cultural do aluno significa atribuir um nível de formalização a tal conteúdo que o torna insuportável para o aluno. O que Dewey está pleiteando aqui, ao por estas duas referências, é um tipo de instrução escolar que possa realmente fazer uma diferença na formação do aluno; que ela possibilite sua própria transformação ao entrar para a escola.

O autor possui consciência sobre os limites da organização escolar existente para poder concretizar a teoria da instrução proposta. Segundo ele, há dois limites visíveis: o aparelhamento material e a padronização da sala de aula. Ou seja, o ensino baseado no manual ou na apostila e uma metodologia geral, que não leva em consideração os contextos culturais específicos, formaliza excessivamente o ensino, impedindo-o de se tornar formativo. O manual pode ser útil, desde que permita o uso criativo tanto do professor como do aluno; isso é o que impede a própria aula de se tornar formal e desinteressante.

Os dois limites acima indicados tiram da escola qualquer vivacidade possível. O exemplo mais característico desta situação é a atitude da própria criança. Na escola ela permanece em silêncio, deixando de manifestar a intensa curiosidade que a caracteriza fora do ambiente escolar. Por sua própria condição infantil, a criança pergunta incessantemente e quando a escola a faz calar, certamente está ocorrendo algo muito errado aí, dentro da escola. Que a escola possa ser em certo sentido uma extensão do mundo infantil e do modo de vida que a criança leva espontaneamente fora dela, mas desenvolvendo ao mesmo tempo sua tarefa formativa específica, é um de seus grandes desafios. Ela não pode simplesmente reproduzir as formas de vida que acontecem fora de seus muros, pois assim não teria razão de ser; mas também não pode ignorar por completo o que acontece lá fora.

O que Dewey quer assegurar à própria escola, ao evidenciar este dilema escolar? Quer torna-la uma caixa de ressonância das aspirações humanas; como ele mesmo afirma, torna-la um acervo de experiências em que os problemas surjam naturalmente, por si mesmos. Tem-se aqui, claramente, seguindo esta ideia de escola, a contramão do modo convencional de concebe-la, como espaço de transmissão do saber, desconectado da experiência cultural do aluno. Mas, a escola consegue realmente cumprir esta expectativa nela depositada, de ser o acervo de experiências que despertam o espírito investigativo dos alunos?

Não devemos nos iludir, pois a tarefa não é nada fácil, no sentido de que possa ser realizada por inteiro, de uma vez por todas. Ciente deste limite, o importante é considerar que os problemas só se tornam problemas do aluno, quando materiais e ocupações reais forem colocados à sua disposição, respeitando a condição do aluno como aluno. Ou seja, trata-se, segundo Dewey, da necessidade de empreendimentos reais implicando o uso de materiais para a realização de determinados fins, se é que desejamos ter, nas escolas, situações tais que gerem normalmente problemas ocasionadores de reflexão e de pensamento investigador.

Portanto, baseando-se na ocupação com materiais diversificados, vinculados ao universo cultural dos alunos, a instrução escolar pode despertar-lhes mais facilmente seu espírito investigativo, proporcionando-lhes a formação de bons hábitos de pensar. Esta é uma maneira pedagogicamente factível de encurtar a distância que separa a escola do mundo cotidiano do aluno, oferecendo-lhe as ferramentas que o auxiliam na busca e descoberta de solução de seus próprios problemas. Ao fazer isso, a escola parte do mundo cotidiano dos alunos, buscando elevá-lo culturalmente.

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