Ética no contexto da pós-verdade

Postado por: Israel Kujawa

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As discussões e reflexões conceituais, do dever ser, que são os objetos próprios da ética, perderam espaço no contexto da ciência moderna. Uma das consequências vivenciadas é a destruição da natureza e a autodestruição humana. Para orientarmos ou reorientarmos nosso comportamento, devemos nos debruçar sobre essa questão, partindo de um entendimento, no qual o comportamento humano deve seguir princípios associados ao contexto vivido. Estar consciente da sociedade que estamos vivemos e devemos construir, para nós e para as próximas gerações, exige um olhar para a história das referências que organizam a sociedade.

Para uma descrição dos comportamentos, é indispensável considerar os conceitos disponibilizados por Michel Foucault, que elegeu o conceito de Panóptico, como indicativo do rigor disciplinar, nas relações entre indivíduos e instituições. A força das instituições, estrategicamente organizadas, tinha o poder de controlar o comportamento dos indivíduos. Essa força ditatorial, simbolizada no holocausto, nos manicômios e nas prisões, passou por questionamentos e ressignificações, em decorrência das práticas que atentaram para os direitos humanos elementares, incluindo o direito de ser respeitado, independentemente da condição social, de gênero, racial ou intelectual.

As conclusões teóricas e práticas comprovaram que os referenciais orientadores das ações, experimentadas pela sociedade no século XX, simbolizam a degradação dos princípios e não salvaguardaram o humano e a vida.  Na sequência histórica, a força dos conceitos neoliberais, possibilitaram espaços para o debate a respeito dos limites da visão maniqueísta e binária, entre o capitalismo e socialismo, a verdade e a mentira, o bem o e mal. No entanto, esses espaços foram restringidos nas últimas décadas, em que se visualiza um comportamento desorientado por excesso de informações comercializadas, controladas por razões mercadológicas, que impendem ou dificultam a ultrapassagem do grau primário de reflexão. Essas restrições comerciais, também, são empecilhos para os comportamentos orientados por diretrizes que sobreponham o humano, em relação aos interesses do lucro.

 As ações éticas, no atual contexto, demandam reflexões sobre a nossa realidade política, social, acadêmica e artística.  Os abismos entre discussões conceituais e acadêmicas, em que são estabelecidos os referencias do comportamento e a nossa ação cotidiana, devem ser constantemente avaliados. Os impactos do conceito de pós-verdade devem ser analisados e assimilados, em sintonia com momento social, que pode ser caracterizado como centro de uma mudança de época.  Além disso, a desorientação em decorrência da comercialização de informações, que hiperbolizam a crise em níveis superficiais, deve ser problematizada, para que o retorno de receitas ditatoriais e desumanas, seja evitado. Portanto, a consciência das variáveis que justificam as posições existentes, bem como o posicionamento individual, é uma imposição ética.

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.


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