Tocar o sino certo

Postado por: Adalíbio Barth

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Na primeira paróquia que assumi, o pároco já estava à minha espera, com o carro pronto e malas carregadas para sua viagem de férias. Explicou rapidamente os compromissos marcados e me desejou boa sorte. Não conhecia nada e ninguém. A missa diária estava marcada para às dezoito horas. Havia-me dito para tocar sempre o sino uma hora antes, porque a pessoa responsável também estava em férias e não havia outra para substituí-la.

Pontualmente, às dezessete horas entrei pela primeira vez na igreja. Primeiramente fui à procura das cordas do sino. Havia uma torre com sinos, mas não se visualizavam as cordas. Subi as escadas da cantoria. Ali pendiam três cordas dos sinos. E agora, qual delas tocar? Ajuntei todas as cordas e comecei a puxar. Mal havia começado, ouvi uma barulheira de gente subindo as escadarias. Parei. Era um bando de meninos que veio censurar-me: - Não é assim! – diziam todos. Identifiquei-me como padre novo e deixei-os tocar conforme o costume. Nesta hora, era somente uma corda. Vieram tocar novamente às seis da tarde. E assim todos os dias.

Dois dias depois, havia uma missa marcada para às nove horas da manhã numa capela do interior. Cheguei ao local, a capela estava fechada e nenhuma pessoa se encontrava ali. Mas a corda do sino estava ao alcance. Toquei-o na esperança de alguma pessoa chegar para participar da missa. Mal havia terminado de tocar o sino, avistei a chegada de um senhor vindo em direção à capela. Senti-me aliviado. Ao menos vou contar com uma pessoa para abrir o templo e participar da celebração.

Após a saudação, logo perguntei:

- Não sei se estou enganado, mas tenho marcado uma missa às nove horas e não vejo ninguém. Sou padre novo na paróquia e não conheço ainda as capelas.

- O senhor está enganado mesmo! – respondeu-me ele. A capela da comunidade católica é lá em baixo. Aqui é da Igreja Luterana.

Com as devidas desculpas, dirigi-me à outra capela, onde as pessoas estavam esperando pelo padre novo, para tocar o sino, avisando da missa.

A partir do Concílio Vaticano II, a Igreja católica procurou incentivar o ecumenismo, entre as comunidades cristãs históricas, visando a unidade dos seguidores de Jesus. Muita coisa ainda desune. Há um longo caminho a percorrer. O som dos sinos é igual, mas da doutrina ainda tem muitas diferenças.

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

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