Por uma educação liberal

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Já fazem mais de dois anos que tenho me ocupado com comentários semanais sistemáticos sobre a obra Democracia e Educação, do pensador, filósofo e pedagogo americano, John Dewey. Esta obra marcou e continua marcando época pela grandiosidade de suas ideias. Dewey soube como poucos fazer uma leitura refinada da tradição intelectual passada, retendo dela aspectos nucleares para desenvolver sua própria teoria da instrução. Também conseguiu atualizar como poucos, para o momento presente de sua época, aspectos nucleares da referida tradição.

Antes de seguir adiante, comentando os próximos capítulos da referida obra, gostaria de sumariar o que fiz até agora com base na seguinte hipótese: a teoria da instrução de Dewey é uma teoria liberal da educação e só por sê-la é que consegue se distanciar criticamente da educação tradicional. Sendo assim, cabe esclarecer o sentido liberal de seu projeto educacional e mostrar em que termo tal liberalismo supera o autoritarismo da educação anterior. Dewey não é adepto do liberalismo clássico e, por isso, não apoia sua ideia de educação no sentido negativo da liberdade humana, ou seja, como proteção exclusiva da liberdade individual em detrimento da liberdade dos outros. Seu liberalismo não significa a defesa pura e simplesmente da propriedade privada em detrimento do bem público. Seu liberalismo também não defende intransigente o mercado como força poderosa autônoma que se autorregula independentemente de forças políticas e sociais mais amplas.

Dewey defende o liberalismo social, colocando-o na base de sua ideia liberal de educação. O primeiro ponto deste liberalismo é um conceito ético-moral de democracia, relacionado com formas de vida voltadas para a cooperação solidária. Neste contexto, a liberdade econômica e a própria propriedade privada possuem sua razão maior de ser voltada para a garantia do bem público, o qual deve assegurar vida digna igual para todos. Se a democracia é o primeiro princípio do liberalismo social, precisa ser inserida como prática de vida no longo e indefinido processo formativo do ser humano. Mas, é sobretudo no âmbito da formação das novas gerações que a democracia como forma de vida se torna indispensável.

Daí a importância que a teoria liberal democrática se volte criticamente contra formas tradicionais de educação. Qual é o núcleo então destas formas de educação que precisa ser criticado? O ponto nuclear é a condição passiva que elas atribuem ao aluno. Tratam-no como mero receptor, como esponja que absorve obedientemente o conhecimento transmitido pelo professor. Por deter a verdade do conhecimento e o poder de transmiti-lo, o professor coloca-se na posição de total superioridade em relação ao aluno. Este modo convencional de ver a educação é reflexo da organização autoritária, profundamente hierárquica, que rege as relações feudais e que obviamente não servem mais para justificar os anseios de liberdade e de relações iguais exigidos pela nova ordem social.

Para impulsionar o liberalismo social democrático, a educação precisa tomar o aluno como sujeito ativo de seu próprio processo formativo. A condição estudantil ativa está na base da ideia de participação, a qual é indispensável para formas democráticas de vida. O dispositivo ativo-participativo implica levar em consideração o mundo experiencial do aluno, pois se ele não for tomado desde o início como um ser capaz de experiência e se não for jogado em sua própria experiência, orientado pedagogicamente para fazê-la, ele jamais deixará de ser passivo. Sair da passividade e assumir voz ativa é o primeiro passo da educação liberal democrática.

O que significa condição ativa? Esta pergunta é importante para evitar mal entendidos e para não diminuir a riqueza que está contida no princípio pedagógico moderno de que o aluno é capaz de aprender com sua própria experiência e que ele somente aprende quando possui condições de realizar suas próprias experiências. Condição ativa não significa pôr-se em movimento e simplesmente fazer algo. O mero fazer não é suficiente para qualificar a atividade que é indispensável para uma forma de vida participativa no sentido democrático pretendido.

Condição ativa tem a ver com reflexão. Daí a importância, segundo Dewey, da relação entre experiência e reflexão, entre método e reflexão. A experiência não é somente aquilo que brota das atividades sensoriais sensíveis e, por isso, não se refere somente ao que é dado pelos sentidos. O método, por sua vez, não tem a ver somente com procedimentos técnicos que são úteis para aperfeiçoar o fazer humano. Na noção tanto de experiência como de método está implicada a capacidade humana de pensar por si mesma, sem a qual não há condição humana participante, no sentido democrático de uma vida cooperativa solidariamente.

É precisamente neste contexto de uma experiência metódica orientada pela reflexão que Dewey concebe como papel primordial da escola desenvolver hábitos de pensar. Mas, como a escola pode exercitar isso? A identidade da escola repousa na sua ocupação com o conhecimento elaborado, sendo indispensável, para o aluno pensar por conta própria, que ele possa se apropriar criativamente deste saber elaborado. Ora, tal saber só se torna interessante ao aluno – e este é o princípio pedagógico de fundo que orienta Dewey em sua noção de escola e o papel que lhe atribui na sociedade contemporânea -, se o professor for capaz de vincula-lo com o mundo experiencial do aluno.

Diante desta nova exigência de ser o mediador entre a experiência de mundo do aluno e o conhecimento sistematizado, o professor não pode mais ser o mero transmissor de conteúdo. Ele precisa se interessar pelo aluno, abrir-se para sua experiência de mundo e estar disposto a aprender com ela. Entretanto, não pode abrir mão do conteúdo e de princípios pedagógicos que auxiliem o aluno a se conflituar com os aspectos imprecisos e limitados de sua própria experiência de mundo.

Como se pode observar, na noção deweyana de liberalismo social democrático está uma defesa convicta do conhecimento escolar e do papel respeitoso e exigente do professor em relação à experiência de mundo do aluno. Contudo, respeitar a condição participante e ativa do aluno significa exigir dele mesmo a transformação dos aspectos limitados de sua experiência de mundo.  É neste sentido que se pode dizer que o aluno entra para a escola de um jeito e sai de outro e consegue fazê-lo quando, por intermediação insubstituível do professor, consegue interessar-se pelo conhecimento escolar, transformando significativamente sua experiência inicial e ingênua de mundo.

 *A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

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