Juízes de rede social?

Postado por: Ionara Lermen

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Semana agitada na política e consequentemente nas redes sociais. Vamos falar das possibilidades infinitas de escrever e disseminar conteúdo e opiniões sem se preocupar com fonte ou autoria. Os benefícios de termos cada vez mais “escritores” (nem que sejam de legendas curtas de 140 caracteres) têm como contraponto a nação de juízes e réus que hoje não pertencem mais a um coletivo institucionalizado, como já foram às escolas, igrejas, famílias, sindicatos; hoje o “pertencimento” é global e a adesão a modos de pensar é pautada pelos #toptrends da rede (os temas mais clicados).

Junto com as facilidades de cada aplicativo, vêm à banalização, a incoerência de falas, a disseminação de notícias falsas ou modos de pensar sem embasamento formal. Os discursos “facebookianos” se mostram um tanto confusos; se por um lado alguns poucos formadores de opinião escrevem textos concisos e bem argumentados, levando o leitor a construir sua opinião, concreta, de outro, os memes, posts, vídeos e montagens engraçadas são disseminados em um “copia e cola”, em um “compartilhar” infinito onde é mais interessante “parecer ser” ironicamente inteligente ou usar a criatividade emprestada do autor do que posicionar-se com mais personalidade e profundidade.

A sociedade brasileira, estatisticamente, não lê pouco, mas lê mal. Existe uma dificuldade grave de compreensão e interpretação de texto. Fato preocupante na medida em que as redes sociais usam o texto e a força da imagem estática ou em movimento para proferir seus discursos. O cientista social Marco Aurélio Nogueira, da USP, coloca que, tradicionalmente, o brasileiro não tem perfil para confronto e divergência, sempre fomos um povo pacífico dado à interação cultural, a aceitação do diferente, porém com as redes sociais o cenário mudou drasticamente.  “A cultura de rede ainda não se fixou em termos éticos na vida brasileira. Não temos uma cultura de boas maneiras. A gente nem sequer sabe o que queremos da vida em rede”, coloca o cientista.

Bruno Ferrari e Gabriela Varella em artigo publicado pela revista Época colocam que: “Parece um duelo do Velho Oeste. No lugar da arma, é o dedo no mouse ou na tela do celular. Navegamos pelas redes sociais como se estivéssemos num filme de bangue-bangue. Aguardamos o adversário chegar armado para nos surpreender. Ao sinal de ameaça, ‘pá!, ou melhor, ‘clique!’. Assim, compartilhamos textos esdrúxulos sem ler só porque o título é provocativo. Distribuímos fotomontagens malfeitas achando que são imagens reais. Assinamos petições on-line sem saber do que se trata.”

Os veículos de comunicação estão avaliando a repercussão das notícias pelos comentários nas postagens de suas páginas. Os usuários opinam a todo tempo sobre qualquer coisa, muitas vezes partindo para o lado pessoal entre os demais autores de comentários ou tirando conclusões precipitadas sem ler toda a notícia. A opinião emitida nasce para ofender, ameaçar, criticar. Muitos juízes, todos focados em sentenças inflamadas.

Qual tem sido o papel “social” das “redes sociais” no que se refere à formação de opinião sobre política, religião, mídia, cultura, gênero? Conhecer e, de fato,  compreender, está relacionado à capacidade de se expor sem agredir, militar por qualquer causa sem violência verbal. A ironia é que a tecnologia parece ter nos feito mais primitivos do que essencialmente “tecnológicos”. 

De onde veio o post que compartilhei? O seu conteúdo realmente faz parte do meu modo de pensar? Ao compartilhar estou auxiliando na disseminação de preconceitos, intolerâncias, ódio?  Reflexões básicas para fazer diferente e sermos promotores de uma cultura digital mais saudável.

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Ionara Lermen é Publicitária. Especialista em Criação para Multimídias. Mestre em Comunicação e Semiótica. Atua com Marketing Digital em Io Mídia e Design | @iomidia

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

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