Unidade entre método e conteúdo de ensino

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O capítulo XIII de Democracia e Educação tem como título “A natureza do método”. Tal capítulo é sequência do que Dewey tratou nos capítulos anteriores, assumindo por isso as teses de fundo que ele já havia apresentado. O importante deste capítulo repousa na definição de método e na sua importância para a teoria deweyana da instrução. Sendo assim, cabe lembrar brevemente que o núcleo de sua teoria da instrução consiste na noção de formação humana como exercício constante do sujeito sobre si mesmo em sua relação com o meio ambiente, visando seu autogoverno moral e político. Então, neste contexto, o método não pode ser entendido meramente como técnicas de procedimento, ou seja, simplesmente como algo externo à ação do sujeito educacional, quer seja como educando ou como educador.

O primeiro ponto a ser considerado é que a unidade entre método e conteúdo de ensino pressupõe a superação do dualismo filosófico entre espírito e matéria, entre sujeito e mundo. No âmbito desse dualismo, a matéria é resultado da classificação sistematizada dos fatos e dos princípios do mundo. Por sua atividade mental isolada, o sujeito distancia-se do mundo e, considerando-se intelectualmente superior a ele, torna-se capaz de classificar por meio de seu intelecto os fatos do próprio mundo. Neste sentido convencional, o método consiste em técnicas que o sujeito se apropria para dirigir o curso do mundo, visando mudar o ambiente ao seu favor, transformando-o em objeto para satisfação de suas necessidades e caprichos.

Neste contexto de um sujeito isolado e intelectualmente superior ao mundo, o método constitui o conjunto de meios que tornam possível que o conteúdo, isto é, a matéria de ensino, seja apresentado ao espírito e gravada no mesmo. Ou seja, o método nada mais é, neste sentido, do que os meios pelos quais o espírito é conduzido a entrar em contato com o conteúdo de ensino. Sem tais meios, o sujeito (educando) não pode ter aquisição ou posse do conteúdo. É esta compreensão do método como meio, separado tanto do sujeito como da matéria de ensino, que supostamente lhe daria poder extraordinário para possibilitar o conhecimento escolar.

Deste modo, o método como meio torna-se mais importante do que o conteúdo de ensino e os próprios sujeitos educacionais. O fato é que, de acordo com esta perspectiva metodológica convencional (tradicional), a primazia concedida aos meios no processo educacional ocorrem em nome da separação mecânica e pouco formativa entre sujeito, conteúdo e o próprio método. Isso ocorre, em parte, porque o próprio método é visto como algo exterior ao próprio sujeito e reduzido a procedimentos meramente formais que se acoplam à postura do sujeito como uma armadura externa, sem estar encarnado vivamente em suas ações.

No âmbito desta visão metodológica mais ampla, tributária da ciência moderna, a pedagogia é compreendida como ciência dos métodos de ensino. Torna-se a ela importante investigar os próprios meios que o professor precisa dominar para poder transmitir ao aluno o conteúdo de ensino. A crença é que o domínio dos meios possuem força suficiente para que o conteúdo de ensino possa ser assimilado com sucesso pelo aluno. Contudo, o fortalecimento do domínio dos meios ocorre em detrimento do papel formativo do professor e da própria importância do conteúdo na formação do aluno. É contra esta noção de pedagogia reduzida ao domínio de técnicas de ensino que Dewey opõem, em Democracia e Educação, sua teoria da instrução. Tal teoria pressupõe a noção de pedagogia como educação geral e não como manuseio de técnicas específicas. A educação geral exige a inseparabilidade entre sujeitos educacionais, método e conteúdo de ensino.

Segundo Dewey, quando reduzida somente ao estudo de técnicas de ensino, a pedagogia se torna mera máscara, não auxiliando o professor a se apropriar de maneira aprofundada do conteúdo a ser ensinado. Com isso o autor quer dizer que o método só possui sentido quando estiver organicamente vinculado à necessidade do professor dominar o conteúdo, auxiliando-o a desenvolvê-lo pedagogicamente para o aluno. Portanto, domínio do conteúdo e formas de trazê-lo para dentro da sala de aula são duas coisas inseparáveis e não basta somente uma para que a instrução se torne realmente formativa.

A tese de Dewey é que o método não deve ser exterior ao conteúdo de ensino e menos ainda aos sujeitos educacionais, no caso, o educador e educando. Ele não pode sê-lo porque quando é bem compreendido e bem conduzido já é uma ação da inteligência para produzir conhecimentos e torna-los compreensíveis na educação dos alunos. Segundo Dewey: Método significa o arranjo da matéria para tornar mais eficaz sua utilização. O método nunca é alguma coisa exterior ao objeto, à matéria. Ora, arranjar a matéria (o conteúdo) significa investigar suas conexões e trazê-las pedagogicamente para o ambiente do ensino.

Dewey busca precisar melhor, ainda no contexto do capítulo XIII de Democracia e Educação, o sentido do método para o sujeito educacional que se encontra na condição de ter que se apropriar da matéria do estudo. Isto é, o que significa método para o aluno que tem que se apropriar do conteúdo do ensino? Como o método pode ajudá-lo a dominar o conteúdo e trazê-lo para seu universo cultural? Estas questões tocam o âmago do amplo processo educacional, especialmente da instrução educativa na perspectiva do aluno.

A matéria de estudo (o conteúdo de ensino) é vital para que o aluno possa mover-se de um lugar para o outro, acrescendo algo indispensável para o crescimento de seu universo cultural. Sem o seu confronto com o conteúdo de ensino, o aluno não se desacomoda e não cresce. Ora, o papel da escola consiste precisamente em desacomodar o aluno, movê-lo de seu universo cultural seguro, de sua zona de conforto, para outras perspectivas de mundo. O papel do professor, com sua postura metodológica adequada, é indispensável para empreender este movimento.

O professor precisa antes de tudo ocupar-se com o bom domínio de conteúdo e para isso precisa estudar permanentemente, preparar bem as aulas e estar à frente no que se refere ao conhecimento. Não pode entrar para dentro da sala de aula despreparado e sem vontade de tratar do conteúdo. Também precisa desenvolver com afinco a postura metodológica adequada para que o conteúdo possa fazer sentido ao aluno. Deste modo, domínio consistente do conteúdo e bom preparo metodológico constituem o núcleo da boa formação do professor.

Neste contexto, vale aqui, também para o professor, o mesmo exigido ao aluno: o método não pode ser estranho ao conteúdo e nem algo meramente formal à postura do professor; precisa ser vivido por ele e estar organicamente ligado ao conteúdo de ensino. Ao atender estas duas condições, o método contribui decisivamente para que a instrução se torne formativa, fazendo diferença na vida tanto do aluno como do professor.

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

 

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