Método de ensino como movimento dirigido

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

Até o momento, ao me ocupar com o capítulo XIII de Democracia e Educação, posso reter, como ideia principal, o fato de Dewey conceber o método como procedimento organicamente vinculado à ação do professor e ao conteúdo de ensino. Sem método o conteúdo de ensino não pode ser primeiramente apropriado pelo professor e, na sequência, ser posto à disposição, para ser novamente apropriado pelo próprio aluno. Professor e aluno possuem cada um à sua maneira seu próprio mundo cultural e o método atua como elemento mediador destes dois mundos, permitindo que o conteúdo de ensino entre em cena sem destruir os respectivos mundos culturais.

Dewey dá um passo adiante em seu esclarecimento, oferecendo uma definição complementar de método como movimento dirigido da matéria de estudo para determinados fins. A matéria de estudo corresponde, como tenho empregado até aqui, ao conteúdo de ensino, ou seja, àquilo que é disposto ao aluno por meio do currículo escolares, de suas disciplinas e do plano de ensino do professor. Movimento dirigido, como definição do método, pressupõe a ação do professor que organiza e dirige tal movimento. Fins determinados indicam os objetivos da educação, delineando o horizonte aonde o ensino pretende chegar.

Portanto, esta definição aparentemente simples de método como movimento dirigido sintetiza os aspectos centrais da ideia de educação como ensino formal, ou seja, como processo formativo que ocorre na escola, dentro da sala de aula. Como movimento, o método é um processo que implica dinamismo e mudança de posição. Sendo assim, é algo que está em permanente transformação, não podendo ser monopólio exclusivo de um único sujeito. Se o movimento dirigido depende muito da ação do professor para que aconteça, não se esgota simplesmente nesta ação, pois precisa da presença ativa do aluno para que inclusive possa acontecer como movimento dirigido. O aluno constitui de certo modo o alvo ao qual se dirige o movimento metódico do professor, ancorado no conteúdo de ensino.

Além da noção de movimento dirigido faz-se necessário também prestar atenção no complemento matéria de estudo dirigida a determinados fins. Na concepção escolar de Dewey, ao contrário do que muitos de seus próprios interpretes imaginam, a matéria de estudo é um aspecto estruturante indispensável da vida escolar. Remetendo imediatamente ao currículo, a matéria de estudo, ou seja, o conteúdo do ensino, é o que dá vida a escola, definindo seu próprio papel. Sem o conteúdo de ensino, tanto professor como aluno agiriam no vazio, perdendo a oportunidade de se aperfeiçoarem permanentemente por meio do espaço escolar.

De outra parte, a expressão determinados fins mostra que o ensino escolar não acontece de maneira neutra, pois tem como alvo e direção a boa formação dos sujeitos envolvidos, principalmente a formação do aluno. Quem define os fins do conteúdo de ensino e em última instância do saber escolar em sua integralidade? Em síntese, a pergunta deixa-se abreviar da seguinte maneira: para que serve o conhecimento escolar? Talvez esta seja uma das questões que mais motivou Dewey a depositar peso decisivo à escola como agente de transformação do sujeito e da própria sociedade. O conhecimento escolar serve para descobrir e desenvolver todas as capacidades do aluno, orientando-as para fins diversos. Ou seja, o conteúdo de ensino só pode colocar-se a serviço da vida democrática na medida em que respeitar a multiplicidade das capacidades humanas e, como decorrência disso, a pluralidade das formas de vida.

Para exemplificar a definição de método como movimento dirigido da matéria de estudo para determinados fins, Dewey recorre ao exemplo do artista. Em que consiste propriamente a atividade do artista e em que sentido ela auxilia para compreender metaforicamente a definição de método? O pianista, por exemplo, não aprende tocar piano ao acaso, simplesmente batendo nas teclas. Tocar piano exige um movimento ordenado que não se encontra previamente dado nas mãos e no cérebro do pianista. Não há, portanto, uma ordem existente a priori no cérebro do pianista que o levaria de maneira inteiramente “natural” a encontrar as notas musicais no piano, mexendo aleatoriamente no teclado.

Sobre isso, afirma Dewey: A ordem encontra-se na disposição dos atos que utilizam o piano, as mãos e o cérebro, para conseguir o resultado em vista. Há, claramente, nesta passagem, o deslocamento da concepção inatista de que o sujeito já nasce com as capacidades formadas para a concepção de que o aprendizado da música ocorre pelo exercício, sendo que a forma como tal exercício é praticado interfere diretamente no desenvolvimento das capacidades indispensável para tornar o pianista um bom pianista. O decisivo não é saber com que capacidades cada ser humano nasce e como elas se encontram ao nascer, mas sim em que situações de aprendizagem a criança é posta para que tais capacidades possam ser desenvolvidas.

Este exemplo mostra por si só a importância da postura metodológica no desenvolvimento das capacidades humanas, especialmente, no caso em análise, na formação do bom pianista.  É o exercício metódico, bem disciplinado diariamente, que faz a diferença na formação do pianista. O mesmo ocorre com o aprendizado do aluno em relação ao conteúdo de ensino. Caso não o exercite frequentemente, encontrando formas próprias de reconstruí-lo, não conseguirá dar significação própria ao conteúdo que não lhe é familiar.

Em todo este processo de recriação, no qual o aluno torna para si o conteúdo de ensino que inicialmente lhe era estranho, o professor desempenha papel importante. Se, por exemplo, apenas ditar o conteúdo e exigir do aluno sua memorização, corre o risco de tornar o conteúdo desinteressante para o aluno. Contudo, se criar dinâmicas vivas, que permitem o exercício livre e criativo do aluno, o conteúdo se torna familiar ao aluno, permitindo tornar seu o que lhe era estranho.

Em síntese, o método significa, no sentido pleiteado por Dewey, o exercício livre e criativo, mas sempre disciplinado, de procedimentos, visando atender determinados fins. São tais exercícios que possibilitam, no âmbito do ensino, o domínio do conhecimento escolar. 

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

Leia Também Homenagem a clubes da cidade gera polêmica A mais equilibrada Série Prata dos últimos anos O que evitar quando há retenção de líquidos? ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA