Método e experiência humana

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Dewey dedica o capítulo XXIII de Democracia e Educação para tratar do método e relacioná-lo ao ensino. Como vimos na coluna anterior, ele compreende o método como movimento dirigido da matéria de estudo para determinados fins. Sendo os sujeitos educacionais que movimentam a matéria de estudo e tais sujeitos mudam constantemente, pois não são uma estátua parada, então os próprios fins são dinâmicos, tendo que ser repensados constantemente, de acordo com a plasticidade tanto do ser humano como das condições do ambiente.

Na coluna de hoje gostaria de tratar da relação entre método e experiência humana, que também é assunto de alguns parágrafos do referido capítulo de Democracia e Educação. A noção de experiência é uma das mais ricas e difíceis da teoria educacional de John Dewey. Já tratei dela aqui em outras colunas e certamente continuarei tratando-a em outras, considerando o peso que ela tem no pensamento do pedagogo americano. Para os propósitos de hoje talvez seja suficiente iniciar com duas questões: o que significa experiência tomada em sua relação com o método? Em que sentido ela auxilia a esclarecer a própria noção de método.

Vou iniciar com a própria definição que o autor oferece de experiência. Diz ele: A experiência, em sua qualidade de percepção da associação entre alguma coisa tentada e alguma coisa em consequência disso sentida ou sofrida, é um processo. Vários aspectos desta definição merecem atenção especial. Primeiro, a experiência é uma percepção; segundo, ela depende da associação entre algo que é feito e o que é sentido ou sofrido do que é feito. Por fim, em terceiro lugar, como percepção desta associação, a experiência torna-se processo. Como entender tudo isso de uma maneira mais simples?

A percepção no sentido pragmatista deweyano implica duplo movimento, imbrincado entre si, o que chega até o ser humano pelos sentidos e o que é elaborado pela sua inteligência. Portanto, percepção não se restringe somente ao que é dado pelos sentidos, ou seja, aquilo que o ser humano vê, toca e sente. Se fosse assim, ela teria apenas um significado sensualista, reduzido aos sentidos. Como exige também a elaboração intelectual, a percepção pressupõe a atividade conceitual. Por isso, pela percepção o ser humano não somente percebe no sentido sensualista, mas compreende o que percebe, atribuindo-lhe significado.

Este significado intelectual da experiência, além de elevá-la muito além do sensualismo, abre espaço para compreender a experiência educacional de maneira mais apropriada. Auxilia a compreender melhor o próprio sujeito educacional, especialmente a criança. Ela não é um ser que só sente e que se deixa mover apenas pelos seus sentidos. Além disso, ela é capaz, já em suas experiências iniciais mais primitivas e rudimentares, de estabelecer o nexo mínimo entre as coisas que sente, distinguindo-as entre si. Ou seja, ela é capaz de elaboração intelectual mínima do que acontece em sua volta, criando progressivamente a noção de perigo e, também, de sua própria identidade.

Para esclarecer a associação entre algo feito e algo sofrido, que é o segundo aspecto da noção de experiência acima referido, podemos tomar o exemplo clássico da relação da criança com o fogo. Os pais proíbem a criança de colocar a mão no fogo. Ela resiste por um instante; mas, dominada por sua curiosidade ou talvez por sua vontade de contrariar a ordem superior, coloca a mão no fogo, sentido imediatamente a dor da mão queimada. O que é feito aqui, nesta ação específica da criança, é seu ato de colocar a mão no fogo; o sentimento de dor da mão queimada é o que ela sofre de sua própria ação. Depois desta experiência dolorida, a criança associa o fogo com a dor sentida e dificilmente irá por novamente a mão no fogo.

Ora, é precisamente esta percepção da associação entre o que se faz e a consequência do que é feito que Dewey define como experiência elaborada, ou seja, como capacidade humana de reter os resultados do que é feito e elevá-los a um nível cada vez mais superior. Isso é decisivo para a própria instrução educativa, pois sem a capacidade humana de associar o que se faz com o resultado do que se faz, o educando repetiria eternamente a mesma ação e, com isso, não poderia ver sua experiência enriquecida após cada ação desenvolvida.

Por fim, quando ocorre a percepção nos termos acima descritos, isto é, como associação, a experiência acontece como processo. Mas, o que significa mais precisamente a experiência como processo? Primeiro, dito negativamente, ela não é algo estático e nem retilíneo, que ocorre sempre do mesmo modo. Processo dá a ideia de movimento e, também, de imprevisibilidade. Dizer que uma ação se move e é movente significa dizer que ela é capaz de fazer surgir algo novo, ganhando formas que inicialmente não estavam previstas. Mover-se significa sair do lugar e topar com coisas estranhas e desconhecidas. A imprevisibilidade é justamente isso, pois ao sair do lugar a ação, por mais intencional que seja, não consegue prever com inteireza o que encontrará pela frente. Por isso, experiência como processo dá uma dimensão da riqueza e ao mesmo tempo da angústia que caracteriza a própria ação humana.

A pergunta que inevitavelmente se põe agora é sobre a relação entre experiência como processo e a noção de método. Como o método se relaciona com a noção de experiência enquanto processo? Dependendo do modo como o método for compreendido, ele pode aniquilar a experiência como processo. Se for compreendido como procedimento rígido, ele impede que a experiência aconteça como processo. Ora, é precisamente aí que entra a originalidade da noção deweyana de método: ele consiste no esforço intelectual para orientar o curso tomado pela processo. O processo da experiência pode inclusive tomar espontaneamente um curso não desejado pelo agente; pode escapar-lhe ao seu controle e ter efeitos desastrosos não só para si mesmo, mas também para os outros e o ambiente mais amplo.

Por isso, como orientação, o método possui o papel de antecipar a experiência humana, prevenindo-a de seus próprios fracassos. Faz com que a espontaneidade da ação, indispensável para sua inventividade e criatividade, possa ocorrer com um mínimo de precaução. Mas, o método não pode se tornar uma camisa de força, como um procedimento meramente regrado que coloque a ação dentro de gavetas. Quando isso acontece, a experiência humana perde sua inventividade. 

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

 

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