Matéria e método

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

A relação entre experiência e método está implicada com outra relação, a saber, entre matéria e método, também tratada no capítulo XIII de Democracia e Educação. O raciocínio de Dewey sobre este ponto talvez auxilie a compreender melhor tanto a noção de experiência como de método e como eles se implicam mutuamente. O que significa matéria neste contexto e como ela auxilia na compreensão da noção de conteúdo de ensino e a necessidade de considera-lo no processo pedagógico? No contexto da educação escolar matéria refere-se ao conteúdo de ensino, o qual é por sua vez a base das disciplinas que compõem a estrutura curricular.

Portanto, a noção de matéria é importante, do ponto de vista pedagógico, pois ela é sinônimo de conteúdo. Ou seja, matéria de ensino é o mesmo que conteúdo de ensino e diz respeito aquilo que é dado ao aluno em sala de aula e por ele reelaborado. A noção de matéria surge, no contexto do capítulo XIII, da distinção entre fazer uma experiência e refletir sobre a experiência realizada. A reflexão sobre a experiência implica a distinção entre a atitude do ser humano e os objetos perante os quais ele mantém tal atitude. Dewey exemplifica isso por meio do ser humano que se alimenta: quando está comendo, o ser humano imbrica-se com o alimento, não distinguindo seu ato de comer do próprio alimento. Para que tal ato possa ocorrer, ele precisa tomar para si o alimento; o ser humano não se alimenta se mastigar o alimento e ao ingeri-lo, torna-o parte de seu organismo, retendo parte dele e eliminando outra parte.

Contudo, sua postura muda imediatamente quando o ser humano reflete sobre o alimento. Se empreende a análise científica do ato de comer, ele terá que fazer primeiramente a discriminação entre o ato e o próprio alimento. O que conta, por um lado, é a análise das propriedades nutritivas do alimento, do que ele é quimicamente composto e como tal composição pode influenciar no organismo humano. Por outro lado, também pode se concentrar cientificamente na análise do ato de apropriação que o organismo precisa fazer para digerir o alimento. É levado a compreender, por exemplo, porque o aparelho digestivo precisa de mais tempo para digerir determinado alimento e menos tempo para outro alimento.

Entre em cena, neste contexto da análise científica, um conjunto de outras questões que não se põe na experiência ordinária de comer o alimento para saciar a fome. Quem está com fome ou quer simplesmente degustar um alimento saboroso, evidentemente que não se pergunta pelas propriedades nutritivas do alimento. Quer tê-lo à boca para sentir seu sabor. Também não está interessado sobre o processo digestivo e qual é o esforço empreendido pelo sistema digestivo para retirar os componentes nutritivos do alimento e lança-los ao organismo. Se sua postura for marcada pelo cuidado com sua saúde ou pela curiosidade científica em saber a composição química do referido alimento, então sua relação com o alimento munda substancialmente. Ao saber das possíveis consequências que tal alimento traz para sua saúde, se for consumido em excesso, irá controlar o consumo do mesmo.

Qual é o problema que está em jogo aqui e que Dewey quer assinalar? A reflexão sobre a experiência permite fazer a distinção entre aquilo que o ser humano experimenta, que se refere à coisa experimentada, e o ato de experimentar, ou seja, ao como da própria experiência. A coisa experimentada diz respeito à matéria, ao objeto sobre o qual a experiência é feita. O ato de experimentar refere-se ao procedimento ou postura, indicando as diferentes possibilidades de como a matéria pode ser experienciada. Olhando à primeira vista, matéria e método são dois universos absolutamente distintos, um possuindo vida própria sem a interferência do outro. Ora, é precisamente contra esta visão dualista de matéria e método que Dewey se insurge.

Em que sentido matéria e método se implicam mutuamente? A matéria está aí, independentemente do método e da atividade do ser humano. Vejo a matéria como coisa, por exemplo, quando estou sozinho em casa ou quando me dirijo para o trabalho. Estou sentado agora, escrevendo, com o computador à minha frente. Cadeira, mesa e computador estão todos aí, na minha frente. Quando vou à Universidade, para dar aula ou fazer pesquisa, tomo meu automóvel e no percurso cruzo com outros automóveis, deixando para traz transeuntes, árvores e outros objetos. Automóveis, transeuntes e árvores são “coisas” que estão aí, existindo independentemente de mim.

De outra parte, é por meio da atividade humana que todas estas coisas, com existência independente, adquirem sentido. É por meio da ação humana que o material ganha forma e torna-se produto da cultura humana. Mas, se é a atividade que dá sentido ao material, por outro lado, sem o próprio material a atividade não seria possível. Como humanos vivemos no meio de coisas e damos sentido sentidos a elas na mesma proporção em que só podemos viver porque estamos sempre cercados de coisas. É esta mútua dependência entre coisa e atividade humana, entre a matéria e o como dar-lhe sentido que conduz Dewey a defender a mútua implicação entre matéria e método.

Esta dupla dependência entre matéria e método dá origem ao conceito ampliado de experiência. Assim afirma Dewey, em uma passagem do capítulo XIII de sua referida obra: A experiência, em suma, não é uma combinação do espírito com o mundo, do sujeito com o objeto, do método com a matéria, e sim uma única interação contínua de grande diversidade de energias (literalmente inumeráveis). A distinção entre combinação e interação contínua marca decididamente a diferença entre o conceito dualista e o, por assim dizer, organicista de experiência.

A combinação pressupõe espírito e mundo com duas entidades isoladas, que precisam se encontrar para que ocorra experiência. Combina-se duas coisas que se encontram separadas entre si. Já a interação contínua implica a imbricação entre um e outro, entre espírito e mundo, não mais como entidades isoladas, mas como prolongamento de um no outro: espírito é mundo no mesmo sentido em que mundo é espírito. Um não existe sem o outro e ambos se ressignificam mutuamente.

A interação contínua entre matéria e método repercute positivamente na educação escolar. Sem método adequado, o conteúdo (matéria) de ensino não pode ser trabalhado satisfatoriamente. Para que o conteúdo possa se tornar formativo para o aluno, ele precisa ser trabalhado de maneira compreensível. Daí que é importante o professor, além de dominar bem o conteúdo, desenvolva também uma postura metodológica capaz de despertar o interesse do aluno pelo conteúdo. Porém, a postura metodológica só pode efetivamente tornar-se boa se estiver ancorada no conteúdo. Método sem conteúdo torna-se apenas instrumento; conteúdo sem método, fica uma coisa vazia, sem repercussão na prática formativa dos sujeitos educacionais. 

Leia Também O político honesto e seu Fusca. Uma incrível história real. Sabedoria O seu voto possui ética? Os farroupilhas e os lanceiros negros!