Malefícios pedagógicos da separação entre conteúdo e método

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A relação entre matéria e método tem, como vimos na coluna anterior, implicações pedagógicas importantes. Enquanto a matéria refere-se de modo geral à coisa experimentada, o método diz respeito ao como se experimenta a coisa. Sem um não há o outro e, por isso, implicam-se mutuamente, não fazendo nenhum sentido o dualismo de qualquer espécie. Do ponto de vista pedagógico, sem um método adequado, a matéria de ensino não pode ser experimentada adequadamente; mas, sem a matéria, o método vira apenas técnica, formalizando-se sem fazer nenhum sentido para quem precisa se apropriar da matéria.

A separação entre material e método traz muitos malefícios à educação. Dewey analisa quatro, sendo que o primeiro deles é a padronização do próprio método para todos os sujeitos educacionais em todas as circunstâncias pedagógicas. Ou seja, quando o método está separado do material, pensa-se que ele pode valer para todos os alunos, desconsiderando suas especificidades. Ele é simplesmente aplicado como regra, independentemente da individualidade do aluno. Ao proceder assim, o método ignora as situações concretas da vida prática, tornando-se estranho às condições de aprendizagem do aluno. O método vem de fora e impõe suas regras, desconsiderando o universo cultural do aluno.

No contexto da educação tradicional, os métodos são impostos, como um corpo estranho à experiência de professores e alunos. Assim afirma Dewey: “Métodos têm então que ser autoritariamente recomendados aos professores, em vez de serem resultado de suas próprias observações inteligentes. Em tais circunstâncias, eles têm uniformidade mecânica, pois a presunção é de serem próprios para todos os espíritos”. Quando compreendidos desta forma, os métodos não exercem influência na prática pedagógica de professores e alunos, tornando-se uma atitude meramente formal, sem sentido.

Ao tratar deste primeiro maleficio que a separação entre método e material gera para o processo pedagógico, Dewey extrair, em contrapartida, um sentido positivo da unidade entre ambos: tal unidade consegue respeitar o que é característico no modo que cada sujeito educacional possui de fazer as coisas. Por exemplo, nem todos os alunos aprendem da mesma forma e tratam do mesmo jeito o material estudado. Quando o método é imposto, sem se incorporar na ação do aluno, ele não considera o modo próprio do aluno trabalhar com o material. De outra parte, quando imposto, o método também subestima a ação inteligente do professor.

O segundo malefício analisado por Dewey é que a separação entre matéria e método conduz à concepção equivocada de interesse e disciplina. Não existe um modo eficaz pronto de tratar o material, que independa da própria ação de alunos e professores e que seja imposto de fora. Quando se procede assim, desrespeitando as experiências dos envolvidos no processo pedagógico, o método só ganha eficiência se for capaz de incutir nos alunos o medo de resultados desagradáveis. O exemplo clássico é a ameaça da prova: “se vocês não me ouvirem e não me respeitarem, poderão ter desempenho desfavorável na prova semestral”, afirma o professor em tom de ameaça aos alunos.

Dewey tem em mente aqui um sentido diferente tanto de disciplina como de interesse. A disciplina não é uma coerção externa, imposta de fora para dentro. Ela é sim o trabalho que os alunos precisam fazer sobre si mesmos, orientados pelo professor. Não é ação autoritária imposta de fora, mas o exercício de si sobre si mesmo. Por isso, a disciplina, neste sentido, alia-se ao interesse, ou seja, ao envolvimento do aluno, tornando seu o material que inicialmente lhe é estranho. “Tornar seu” significa tornar familiar, ao mundo cultural do aluno, o conteúdo que não lhe pertence. Justamente aí é que a disciplina torna-se a força pedagógica para que o aluno possa fazer, por disposição própria, o esforço de se apropriar do conteúdo. Em síntese, a organicidade entre método e conteúdo permite a interação entre interesse e disciplina: o aluno só se apropria do conteúdo se o mesmo tornar-se interessante para ele. A disciplina, pressupondo a presença do professor, orienta a necessária lapidação do próprio interesse do aluno.

O terceiro malefício da separação entre matéria e método é que ele faz perder a espontaneidade do próprio ensinar e aprender. “Quando o material não for utilizado para provocar impulsos e hábitos com vistas à obtenção de resultados significativos, então será uma simples coisa para ser aprendida”. O que se pressupõe aqui, na contramão do ensino tradicional, é que o processo de aprender implica um ato de liberdade, não devendo ocorrer por constrangimento. Sentindo-se coagido, o aluno aprende a matéria por aprender e não a torna parte de sua experiência de mundo. Por isso, quando o conteúdo é separado do método ativo capaz de envolver o aluno desde o início, torna-se maçante e sem sentido.

Mas, como então o aluno aprende? Compreender como o aluno aprende e desenvolver os métodos mais eficientes para esta aprendizagem é uma das questões mais importantes da educação escolar. Dewey afirma convictamente: “O aluno aprende quando percebe o lugar ocupado pela matéria do estudo no curso de algum emprego de sua atividade”. A matéria precisa ter um lugar em seu processo de aprendizagem. Não pode ser tratada como um corpo estranho, que não tenha nenhuma ligação com sua experiência de mundo. É o curso da atividade do aluno que pode torna-la familiar, na medida em que o aluno sente-se capaz de emprega-la em sua própria experiência. Portanto, ele encontra o sentido da matéria estudada quando consegue emprega-la em alguma atividade. Não é simplesmente pela memorização, mas sim pela ação que envolve o trabalho contínuo, inclusive, manual, com a matéria de ensino, que o aluno passa a se interessar pelo conteúdo de ensino.

Por fim, o quarto malefício da separação entre matéria e método conduz à redução do próprio método a uma rotina árida, no sentido de ser uma sequência mecânica de determinados passos prescritos. Rotina árida baseada em passos mecânicos é precisamente o oposto do método ativo que consegue envolver organicamente (vivamente) o aluno no processo pedagógico. Criticando os métodos fixos, Dewey arremata: “Nada deu mais descrédito à teoria pedagógica do que acreditar-se ser função dela fornecer aos professores receitas e modelos que se devam seguir na prática de ensino”.

Em síntese, ao analisar os quatro malefícios acima indicados, resultantes da separação artificial entre conteúdo e método, Dewey dá uma ideia bem precisa do que é um método ativo em contraposição ao método fixo e mecânico, que se torna estéril à experiência formativa do aluno. O método ativo torna-se mais adequado porque considera que o conteúdo precisa fazer parte da experiência do aluno e consegue fazê-lo quando o aluno o emprega vendo o sentido da matéria para sua experiência prática. Isso significa dizer, em outras palavras, que o conteúdo de ensino precisa ser de uma maneira ou outra experimentado pelo aluno. Encontrar o elo de ligação entre o conteúdo a ser tratado e a experiência de mundo do aluno é uma árdua tarefa da educação escolar e, portanto, uma exigência permanente do professor em sala de aula.

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião de seu autor.

 

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