Método geral e método individual

Postado por: Cláudio Dalbosco

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No capítulo XIII da Democracia e Educação, que possui como título, como vimos, a “Natureza do método”, Dewey introduz a distinção entre método geral e método individual, a qual torna-se importante para compreender o papel do método individual no processo formativo mais amplo e, especificamente, na educação escolar. Em que sentido tal distinção favorece o processo formativo? Por que o método individual precisa do método geral? Lembremos, mais uma vez, antes de tratar destas questões, que o núcleo da definição de método repousa no seguinte: o método são recursos disponíveis para que o ser humano possa realizar seus próprios fins. Trazendo esta definição para o campo educacional, pode-se dizer que método são recursos pedagógicos disponíveis para que a educação possa realizar seus próprios fins. Diante desta definição põe-se a seguinte questão: o que são recursos pedagógicos e que fins possui a educação?

O método geral compreende tudo o que já fora produzido pela humanidade, que faz parte do passado e que, no entanto, auxilia e pode auxiliar poderosamente o presente. Compreende, por exemplo, todos os ofícios e profissões humanos como arte e ciência. Deste modo, uma boa noção de método geral compreenderia a síntese dos melhores recursos e procedimentos de cada área do conhecimento humano ou de cada profissão. Embora tal síntese não seria nada fácil de ser feita, ela deveria contemplar o que há de melhor no exercício prático das diferentes ramificações científicas e, também, as reflexões teóricas que fundamentam tais exercícios.

Já o método individual refere-se ao uso prático, pessoal, de recursos do método geral. Depende do modo como o cientista ou o profissional de uma determinada área do conhecimento humano incorpora criativamente, no exercício de sua profissão, o que a cultura humana já produziu em termos de recursos e procedimentos metodológicos. Por isso, quanto mais o profissional conhecer tais recursos e mais se esforçar para pô-los em prática, inovando-os, mais preparado estará para solucionar os problemas que nascem de sua profissão, podendo inclusive auxiliar com mais eficiência outras pessoas e a sociedade como um todo.

O que Dewey quer enfatizar com esta mútua dependência entre método geral e método individual? Do ponto de vista do método geral, ele quer dizer que o mesmo só possui sentido e validade na medida em que for atualizado. Os métodos clássicos por si mesmos não dizem nada; ganham vida e tornam-se atuais na medida em que forem postos em contato com a realidade atual. Nasceram para dar contam de problemas específicos, numa determinada época histórica. Mesmo que nossa época difira muito daquela época e que os problemas dela não mais nos interessam, para os dias atuais, podemos ainda aprender muito com a construção metodológica feita na época e com o modo como se colocou em ação o método para tratar de problemas específicos.

Por isso, do ponto de vista do método individual, sua relação com os métodos clássicos é indispensável. Dewey quer acentuar com isso que por mais inteligente e engenhoso o ser humano for, ele não consegue criar só pela intuição, de maneira só espontânea, recursos e procedimentos metodológicos para emprega-los no exercício de sua profissão. São, sim, problemas práticos que o levam às questões metodológicas e à necessidade de descobrir novos recursos para poder dar conta de situações específicas. Contudo, quanto mais bagagem cultural o profissional tiver e quanto mais conhecer os métodos clássicos, mais condições intelectuais terá para dar resposta aos problemas específicos de sua profissão.

Para tornar ainda mais claro seu ponto de vista, Dewey toma como exemplo as belas-artes.  A prática de qualquer uma das belas-artes não é conquistada pelo mero improviso e nem somente pela inspiração. Improviso e inspiração não são suficientes para que o pintor crie uma bela tela, dando origem a uma moldura singular. Ele precisa saber de telas, tintas, pinceis, de outros materiais e da técnica de manipulação destes materiais. Mas, com afirma Dewey, também é essencial o estudo das operações e dos resultados daqueles que no passado foram bem sucedidos.

Por mais talentoso que seja o pintor, ele não possui conhecimento inato e sólido o suficiente que o habilite só pela intuição e espontaneidade a criar molduras originais. A capacidade inovadora de sua atividade depende que o pintor estude a fundo a história da pintura e que conheça em detalhes as diferentes técnicas empregadas historicamente pelos bons profissionais de sua área. Quanto mais conhecer isso, mais bagagem cultural terá para criar coisas novas e, talvez, desenvolver novas técnicas de pintura. Em síntese, Dewey está querendo dizer que a originalidade não surge somente de um ato intuitivo baseado em um saber inato, mas sim de um árduo trabalho investigativo que possa ancorar o exercício diário do pintor, dando-lhe o suporte intelectual para que possa inovar em sua área. Isso vale também para a música, o teatro e para todas as outras áreas do conhecimento humano, como, especificamente, também para o campo educacional.

Neste sentido, que analogia podemos fazer entre o trabalho do pintor e do professor? Não é suficiente, para o professor, ter boa capacidade intuitiva para aperfeiçoar sua prática pedagógica diária. A intuição que fica só na prática pedagógica diária corre o risco se se arrefecer. O bom relacionamento com seu aluno depende claro da sensibilidade pedagógica do professor, do tato pedagógico que ele vai aperfeiçoando ao longo de sua experiência pedagógica. Mas só isso não basta! Quanto mais seu tato pedagógico estiver amparado no conhecimento dos diferentes métodos criados pela tradição pedagógica e nos diferentes modos que tal tradição desenvolveu para empregar seus métodos, mais o professor poderá dar suporte intelectual para seu tato pedagógico. Portanto, apoiada no conhecimento intelectual do método, a intuição do professor terá mais condições de aperfeiçoar sua própria prática pedagógica.

A tradição definiu em diferentes contextos históricos e sociais o que está implicado em uma relação pedagógica, constituída pelos sujeitos educacionais, buscando estabelecer posturas pedagógicas apropriadas tanto para o professor como para o aluno. Conhecer esta tradição dá um suporte intelectual insubstituível para que o professor possa compreender melhor a si mesmo e aos seus alunos e, com isso, poder trata-los pedagogicamente da maneira mais adequada possível, respeitando sua condição e buscando ir além deles.

Em síntese, se um dos fins da educação escolar é a investigação e o ensino do saber cultural elaborado e se os recursos metodológicos são indispensáveis para a execução deste fim, então, quanto mais o professor estiver ancorado no saber metodológico legado pela tradição pedagógica, mais condições intelectuais terá de recriar junto com seu aluno o próprio saber elaborado. Portanto, o professor pode dar mais eficiência ao seu poder intuitivo e criativo, quando está disposto a conhecer a tradição metodológica que embasa o saber cultura a ser apropriado pela escola.

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