Longos beijos

Postado por: Júlio César de Medeiro

Compartilhe

Ele era um rapaz tímido, daqueles que ficam com as bochechas vermelhas sem razão. Além disso, era meio nerd. Colecionava moedas, selos, gostava de videogame, Star Wars, Senhor dos Anéis, discos de vinil e rock antigo. Contava os reais cada vez que precisava colocar gasolina, para não abastecer mais do que pudesse pagar. Trabalhava com informática, morava com os pais, não fumava e só bebia socialmente. Se achava meio esquisito. Os poucos amigos o achavam também. Por óbvio, não tinha namorada. Mas tinha um Fusca, o seu xodó. Velho, surrado, judiado. Era seu mais antigo amigo, com quem vivera a maioria de suas aventuras e que permaneceria com ele até o fim dos dias.

Ela era descolada. Falava inglês, francês, espanhol e italiano. Cursava Psicologia, estudava Hipnose, falava de Freud, psique e subconsciente. Havia morado em outros países, outros estados e outras cidades. Gostava de viagens e de festas. Tinha amigos por todos os lugares e todos a achavam demais. Surpreendentemente, também não tinha namorado.

Um dia, o improvável aconteceu. Uma amiga em comum os apresentou e dois mundos distantes colidiram. Foi emocionante. Ela passou a noite toda falando sobre tudo, encantada com o ar sério e com a atenção que recebia do rapaz das bochechas vermelhas e que pouco falava. Ele passou a noite toda ouvindo aquela voz doce contando sobre coisas que ele nem sabia o que eram, mas que deviam ser lindas.

Troca de telefones, despedida contida, beijinhos no rosto. Coisas de rapaz tímido do interior e de moça bem recomendada pelos pais. Uma semana se passou sem que ele reunisse coragem para ligar. No oitavo dia, finalmente ligou. Convidou para ir ao cinema. Ela aceitou. Deu o endereço e disse que estaria pronta às sete. Ele desligou o telefone e saiu flutuando pela sala com um sorriso bobo no rosto. Até que lembrou que teria que ir buscá-la de carro. Com o seu carro. O Fusca. Como poderia conduzir aquela que lhe despertara sentimentos nunca experimentados, que poderia ser o amor da sua vida, tão bela e tão fina, no seu velho e encardido Fusca, cheirando a gasolina, pingando óleo e cheio de ferrugens? A alegria deu lugar à tristeza e a desilusão amorosa encobriu o céu com grossas nuvens negras.

Pensou em alugar um carro, mas faltava grana. Pensou em pedir um carro emprestado, mas faltavam amigos. Resolveu então  pedir um conselho ao pai.

Do alto dos seus cabelos brancos, o pai lhe disse que devia ir com o Fusca. Se ela se recusasse a entrar, estaria tudo resolvido. Da mesma forma, se ela entrasse, sem se importar com a carruagem e sim com o condutor, também estaria tudo resolvido.

E assim, tremendo como vara verde, ele foi. Até o Fusca parecia nervoso, tossindo e engasgando mais que de costume. Estacionou na frente da casa. Tocou a campainha. Quem abriu a porta foi a mãe. Muito gentil, o fez entrar e sentar para esperar enquanto ela terminava de se arrumar. O pai apareceu, muito sério, mas tranquilo. Conversaram por poucos minutos sobre o tempo, política e esses assuntos de momentos triviais que antecedem momentos especiais. Então ela veio.  Linda, luminosa e cheirosa. Despediu-se rapidamente dos pais e o carregou porta a fora pela mão.

Quando viu o Fusca, parou. Apontando para o velho VW, perguntou se aquele era o carro dele. Ele, esperando o pior, engasgou um sim que saiu mascado. Por cinco segundos ela permaneceu imóvel fitando o velho Fusca. Os mesmos cinco segundos para ele foram cinco minutos de terrível silêncio e convulsões cerebrais.

Então ela disse, em meio a um sorriso enorme, que havia andado rodado muito em um Fusca de seu pai e que os adorava. Que pensava em comprar um Fusca e que estava até guardando dinheiro para isso.

A partir daí, o Fusca foi o assunto da noite. Como podia uma princesa como ela saber tanto sobre carros antigos e gostar tanto de Fuscas? Melhores anos, modelos, séries especiais, motores... Ele nem acreditava.

Depois do filme, ele pediu se ela gostaria de dirigir seu Fusca na volta para casa. Ela pulou miudinho,  numa alegria quase infantil e praticamente tomou as chaves das mãos dele.

Nessa noite, a despedida foi de longos beijos.

Leia Também Alimentação durante o tratamento da infecção urinária Estado falha e municípios pagam a conta da saúde O cão, o trigo e o Fusca Não incide IOF sobre fluxo financeiro em participação em sociedade