As manifestações e a democracia

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Com um nível de percepção um pouco elaborado, é possível verificar que os vegetais se manifestam, pois, por exemplo, quando estão desidratados diminuem o vigor e murcham. Além do instinto de sobrevivência semelhantes ao existente nas plantas, os animais, por sua vez, surgem individualmente com capacidade de participação e interação com o meio, advinda da consciência. A capacidade de identificar o outro como um ser dotado de direitos é um ponto importante para o exercício da própria cidadania e do jogo democrático, o qual exige exercícios de convivência contraditória entre os desejos e as necessidades, o individual e o coletivo, além do institucional. A vida em sociedade, no mundo contemporâneo, possibilita a ampliação da consciência democrática dos seres humanos, indicando que os vegetais e os animais – em especial a espécie humana - devem ter suas necessidades básicas de abrigo e alimentação atendidas.

Todas as manifestações sociais são políticas e ideológicas, mesmo que sejam apoiadas em desejos e necessidades individuais. Ocorre que, distintamente dos instintos, os desejos e as necessidades não são naturais, mas frutos das relações e da interação entre o indivíduo e o meio. Os seres humanos, então, aprenderam que a organização em grupos aumenta a possibilidade de viabilizar suas necessidades e seus desejos.  Essa organização incluiu a construção de regras: para a convivência no interior de um grupo e para normatizar a convivência entre os grupos, contribuindo para o aperfeiçoamento democrático das relações humanas.

A liderança de um grupo, que por condições objetivas e de contexto, impõem e faz valer as suas necessidades, interage com a atuação de outros grupos. Os conflitos de interesses gerados desse contato são mediados e regulados por instituições dotadas de recursos de influência mais potentes. As imposições e sobreposições de um grupo, assim, estão vinculadas com a capacidade de influência objetiva e subjetiva, porque as necessidades e os desejos são construídos por cada sujeito, sob influência dos outros. Nesse modo de compreender, as relações dos indivíduos entre si, com outros grupos e com as instituições mais abrangentes, devem ser um exercício permanente de construção democrática.

A consistência democrática das manifestações pode ser percebida na visão estratégica e na clareza das suas motivações.   Em sintonia com esse entendimento, é relevante identificar as razões de curto e de longo prazo, dos indivíduos e dos grupos. É oportuno lembrar que os argumentos que caracterizavam as manifestações ocorridas no Brasil, a partir de 2013, superficialmente qualificadas como difusas, influenciaram no processo eleitoral de 2014, contribuíram para a deposição de um governo, em 2016, e para a imposição do estado de exceção, protagonizado pelo sistema judiciário. É valioso perceber que as manifestações de 2018 estão revelando uma insatisfação generalizada, para, além disso, as suas razões estratégias devem ser explicitadas, para que não produzam aumento da frustração, arrependimentos e mais retrocessos na universalização da democracia.

*A Fundação Cultural Planalto de Passo Fundo salienta que o texto reflete a opinião exclusiva de seu autor.

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