Hospital São Vicente de Paulo: um século dedicado ao cuidado da vida

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HOSPITAL SÃO VICENTE DE PAULO

Um século dedicado ao cuidado da vida

             Em 1918 o mundo viu o fim da primeira Guerra Mundial. No Brasil, uma pandemia da Gripe Espanhola acometia a população, atingindo inclusive o presidente Rodrigues Alves. Em Passo Fundo, no norte do Rio Grande Sul, um padre, Rafael Iop apoiado por um grupo de católicos Vicentinos, das Zeladoras do Apostolado da Oração e outras pessoas, imbuídas do espírito de caridade, resolvem auxiliar e abrigar os doentes que sofriam com a pandemia. Foi então, que em um prédio arrendado na Rua Paissandú, nº 16, em 24 de junho, eu nasci.  Me deram o nome de Hospital São Vicente de Paulo, em homenagem ao santo patrono da Caridade.

Com média de 20 metros de frente por 12 de fundos, com cozinha, dispensa, forno e um galpão, uma seção para homens, outra para mulheres, dois quartos de segunda classe, um de primeira, uma sala de operações, uma de visita e uma casa para isolamento, eu inicie os atendimentos. Era pequeno em estrutura, tecnologia e pessoal, mas não em esforços para auxiliar a população. No meu primeiro ano de vida, recebi 76 doentes.

Em 1921, me mudei para a Rua Teixeira Soares. Com o passar dos anos, a procura por cuidados médicos aumentou e precisei crescer. De pavilhão em pavilhão, prédios e salas fui aumentando em tamanho. Ao meu lado eu tinha alguns médicos, os vicentinos e o apoio das Irmãs da Caridade. Em 1937 fui equiparado aos bons hospitais da capital, com destaque para amplo setor de reabilitação, com aparelhos de eletroterapia, ultravioleta, alta frequência, raio infravermelho, tratamento diatérmico de ondas curtas, aparelho de RX e uma sala cirúrgica. Ano após ano, fui crescendo em estrutura, equipamentos e mais pessoas se juntaram à minha missão: cuidar da vida.

Hoje, no meu centésimo aniversário, com meus cabelos brancos, olho para este século que passou. Com olhos marejados, vejo como cresci, evolui e melhorei. Lembro de todos os rostos que por aqui passaram. Me vem à mente todas as histórias que vivi, quantos vi nascer. Nos meus corredores abracei silenciosamente todos os que choraram suas perdas e acolhi aqueles que em um momento de fragilidade pediam em silêncio por dias melhores. Sorri e vibrei com as tantas altas, restabelecimento da saúde das pessoas e com os bebês lindos que vieram ao mundo. Muitos dos que estiveram por aqui tinham consigo uma característica que também é minha, a fé. A fé tão forte no meu nascimento é a que consola, ampara muitos pacientes e auxilia, junto com o tratamento, na recuperação.

Meu atual presidente, Decio Ramos de Lima, emociona-se ao falar da importância do Hospital São Vicente de Paulo para as pessoas que buscam a instituição para fazer seu tratamento de saúde. “Para nós, vicentinos, que estamos à frente desde a fundação, o Hospital São Vicente é uma instituição sagrada, por ter uma missão tão nobre e divina, o cuidado com a vida humana. Dentre 45 anos exercendo cargos públicos, nenhum papel me deu tanto orgulho e alegria como ser presidente do Hospital São Vicente de Paulo. Quero agradecer imensamente cada Vicentino, cada médico e funcionário, por fazer parte desta história centenária, de superações, dificuldades e de muitos êxitos, sucessos e de muitas vidas salvas”.

Referência de atendimento

Com meu crescimento e melhorias com o passar dos anos, fui me tornando referência para as pessoas, pois sabiam que aqui encontrariam o cuidado que precisavam. Hoje, sou centro de referência na assistência de alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS), para uma população de mais de dois milhões de habitantes, abrangendo municípios da macrorregião norte e missioneira do estado. As áreas referenciadas são: cirurgia cardiovascular, cardiologia intervencionista, traumato-ortopedia, neurocirurgia, nefrologia, terapia nutricional e transplantes.

Um dos muitos responsáveis pelo meu crescimento, foi o médico pediatra e atual diretor médico do Hospital São Vicente, Dr. Rudah Jorge, que há mais de 50 anos presta serviços para a instituição. Rudah foi o 40º médico a chegar na cidade e o primeiro pediatra. Na época, eu tinha 80 leitos e uma sala de cirurgia. Quando Rudah assumiu a direção médica em 1969, tomou junto com os vicentinos e direção, a decisão de tornar meu corpo clínico aberto. A partir dessa atitude e com o início das atividades da Faculdade de Medicina, tive um impulso no crescimento e me tornei o maior hospital do interior do estado, ajudando Passo Fundo a ser um polo em saúde na região Sul. “50 anos depois da minha chegada, Passo Fundo tem 1000 médicos e mais de 700 atuam no HSVP. Há uma diferença enorme da Medicina de quando cheguei e de hoje. Não tínhamos no início laboratório de análises clínicas, depois com a chegada do SANI, isso melhorou e agilizou os processos de diagnósticos. O Raio X que tínhamos na época era de 30 mm ampéres, onde se conseguia fazer raio X de fratura de osso. Para fazer raio X em crianças, tinha que pedir para elas não respirarem. Então, tinha que se fazer uma história, exame físico, escuta, tudo bem feito para dar o diagnóstico e tratamento. Naquela época, Passo Fundo não tinha pronto socorro. Os médicos tinham que ir até a casa dos pacientes e também não se tinha farmácias 24h. Então, nós começamos com a Emergência e pedimos para as farmácias ficarem abertas. A dificuldade de trabalhar era muito grande. Hoje temos CTI’s equipadas e preparadas, pronto socorro, uma estrutura de tecnologia e profissionais, fantástica. Desde que entrei na direção médica do hospital, a intenção era deixar um recado e ajudar o hospital a crescer”.

O aprendizado que motiva

Os cem anos me trouxeram muitas coisas. Algumas delas são a experiência e a maturidade. Sei quem sou e para onde vou. Conheço os caminhos. Na ânsia do aprendizado e na vibração da juventude dos alunos que percorrem os meus quartos de internação, as unidades e corredores, ganho cada vez mais fôlego. Meus olhos brilham ao ver pessoas ensinando e buscando a cada dia o melhor para a população. A pesquisa e os trabalhos científicos e toda a efervescência dos residentes, estudantes de graduação, nível técnico, pós-graduação, preceptores e professores, me rejuvenescem. Essa paixão pelo ensino está comigo desde sempre. Com o apoio das Irmãs da Caridade, em 1958 foi fundada a Escola de Auxiliares de Enfermagem, hoje, Escola de Educação Profissional São Vicente, que já formou mais de 3000 técnicos. Em 1969, uma grande parceria foi formada com a Universidade de Passo Fundo, trazendo os alunos de Medicina para aprender aqui e me tornar em 1970, um hospital escola. Essa parceria segue desde então e outros tantos cursos da saúde utilizam-me como cenário de prática. Mais recentemente, outra grande instituição tornou-se nossa parceria. A Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) passa, em 2014, a ser a mantenedora dos Programas de Residência Médica, que hoje conta com 163 residentes em 28 programas. Ainda, as atividades da Residência Multiprofissional Integrada em Atenção ao Câncer e Saúde do Idoso, realizada em conjunto com UPF e Secretaria Municipal de Saúde, oportunizam a 36 profissionais atuarem em Enfermagem, Farmácia, Nutrição e Fisioterapia.

Na Unidade de Pesquisa Clínica, mais de 100 estudos multicêntricos são executados, sendo 95 internacionais e 9 nacionais.

A vida renasce

A vida que nasce me emociona e a que renasce encanta. Quando em 1969 o primeiro transplante de córnea foi realizado, eu vi um novo e bonito capítulo se iniciando na minha trajetória, o dos transplantes.  Em 1981 foram realizados o primeiro transplante de rim e ósseo. Em 1988, o primeiro transplante de fêmur e de coração. Em 2000, fui o primeiro hospital do interior do estado a realizar um transplante de fígado e em 2002, o primeiro transplante de menisco. Desde estes primeiros pontapés até hoje, já realizei 794 transplantes de córnea, 234 de rim, 5.268 de tecido ósseo e 260 de fígado. E seguimos, com a expectativa de dar novas chances a mais vidas.

            O atual coordenador da Equipe de Transplante Hepático e cirurgião Dr. Paulo Reichert, chegou até mim em 1987. Após a conclusão do mestrado e doutorado em Cirurgia do Fígado, junto com uma equipe, o cirurgião começou a sonhar com a possibilidade, nos anos 90, de realizar um transplante hepático em Passo Fundo. Depois de muitos cursos, treinamentos, mais de um ano e meio de espera para o credenciamento do hospital para a realização do procedimento, em junho de 2000, a equipe operou o primeiro transplante. Hoje, 18 anos depois, Reichert comemora a continuidade do trabalho e os resultados obtidos. “O transplante ou dá muita alegria ou muita tristeza, porque são casos de muito risco e se eventualmente se perde um paciente é uma tristeza profunda, pelo envolvimento que se tem com o paciente. Por outro lado, o habitual do transplante é dar certo e isso, gera uma enorme alegria. Temos transplantados há 18 anos que vivem sua vida normal, com filhos, netos, a vida que continua. Precisamos agradecer a todos que se envolvem com o transplante durante todos esses anos, e, ainda temos muitos desafios pela frente. Estamos perdendo muitos pacientes na fila por falta de órgãos e também vivemos as dificuldades de um país em crise. Mas, seguimos com esperança de ajudar mais pessoas, de aumentar o diagnóstico de potenciais doadores, o número de consentimento das famílias e de vencer os desafios que estão surgindo”.

Os desafios nos movem

Todos os dias, mais de cinco mil pessoas circulam pelos meus corredores. Já vi casos dos mais variados. Doenças raras, comuns, tive vitórias e algumas derrotas. Mas diante de tudo que surgiu, nunca me apavorei, pelo contrário, sempre tive ao meu lado pessoas prontas e eficientes. Foi assim, quando em 2009, o país enfrentou a epidemia de Gripe A (H1N1). Frente a algo desconhecido, lembrei dos meus primeiros dias de vida, quando atendemos os doentes da Gripe Espanhola. Fomos pioneiros, mudamos o protocolo e demos um novo destino às pessoas acometidas pela H1N1. Atendi 367 pacientes, destes, 24,79% foram casos confirmados para Influenza A (H1N1). 

 

Em 2013, recebi no mundo a pequena Júlia Rita Piva, que nasceu pesando 470 gramas. Depois de quatro meses internada no CTI Pediátrico Neonatal, a guerreira foi para o quarto e recebeu alta hospitalar no dia 28 de fevereiro de 2014. Hoje, com cinco anos, a menor prematura a nascer e sobreviver no HSVP, tem uma vida sem sequelas e feliz com sua família. Assim como ela, no CTI Neonatal, muitos bebês e famílias recebem apoio e suporte, e aqui encontram uma estrutura de pessoal e tecnológica preparada para casos complexos.

Um passo à frente

Nestes meus 100 anos, uma característica que sempre mantive muito forte foi o pioneirismo. Eu sei que para fazer mais pelas pessoas é preciso sempre buscar o novo, o que há de mais moderno, por isso, fui o primeiro a realizar, em 2012, uma cirurgia de separação de gêmeas siamesas, no interior do estado. Kerolyn e Kauany, com seis anos, levam uma vida normal e me visitam de vez em quando para acompanhamento. Ainda, em 1981 fui o primeiro no país a organizar um Banco de Tecidos Musculoesquelético.

A tecnologia sempre foi um dos meus pilares para um bom desempenho e resultados. O Centro de Diagnóstico, com exames clínicos e de imagem, é completo e trabalha 24 horas, com equipamentos de parâmetro internacional, unindo agilidade, precisão e segurança. Além disso, no tratamento para o câncer dispomos de dois aceleradores lineares, sendo um, recentemente adquirido, de ponta para a Radioterapia e  Radiocirurgia.

Na Cardiologia, uma das especialidades que sou referência, sempre busquei estar alinhado ao desenvolvimento da especialidade. O médico cardiologista Júlio Teixeira, que foi o primeiro cardiologista com residência na área a chegar no hospital em 1972, conta que houve uma enorme evolução com o passar dos anos. Com as primeiras cirurgias cardíacas evolui ainda mais e a criação do CTI Cardiológico, que até hoje é referência no sul do país, trouxe suporte para o pós-operatório. “Hoje, o Hospital São Vicente é o maior centro de cirurgia cardíaca e de hemodinâmica do interior do estado. Também na parte clínica e recentemente com o avanço de eletrofisiologia, temos um dos melhores serviços do estado. Fomos uma das instituições pioneiras a fazer o que chamamos de angioplastia primária, ou seja, o doente chega com infarto e imediatamente é tratado por angioplastia. Mais recentemente por angioplastia e stend. Temos uma equipe organizada e bem montada que mantém um plantão cardiológico 24h por dia, 365 dias no ano. Ainda, com a criação do Departamento de Cardiologia, temos uma residência com uma história muito linda, profissionais organizados, com foco também no ensino, produções científicas, que buscam o que há de melhor na área”.

Emergência pronta para atender casos complexos

É através da Emergência que recebo muitas das pessoas que necessitam de cuidados, muitos deles gravíssimos, que precisam de atendimento complexo e equipe preparada. Em 2017, 66.263 pacientes passaram pela Emergência. Muitos casos de trauma, onde em um momento de desespero, as pessoas encontram um suporte adequado.

O Serviço de Ortopedia e Traumatologia é responsável pelo setor de Emergência e atende em média de 10% dos pacientes internados no HSVP. O médico ortopedista e cirurgião da mão, Osvandre Lech, integrante do corpo clínico do HSVP desde 1979, fala que “a Ortopedia e Traumatologia é feita de forma especializada desde o início dos anos 80. Isso significa que os pacientes são atendidos de acordo com seu problema, seja um trauma, problemas de joelho, quadril, ombro e afins, fazendo com que, este atendimento especializado persiga um índice de bons e excelentes resultados, bem maior do que aquele obtido pela ortopedia geral. Se sabe também que um hospital que realiza repetidamente os mesmos procedimentos, tende a fazê-lo de forma mais econômica e com melhores resultados”.

Osvandre pontua ainda que, aprendeu Ortopedia e Traumatologia na instituição. O especialista além do tratamento dos pacientes, se dedica ao ensino, pesquisa e publicação científica, levando sempre o nome do Hospital São Vicente nas conferências e publicações nacionais e internacionais. “Contribuí, junto com outros colegas da especialidade, para colocar a cidade de Passo Fundo e o Hospital São Vicente de Paulo no mapa da Ortopedia estadual, nacional e atualmente, internacional. Somos reconhecidos como um centro de excelência pelo caráter ético e pelos resultados obtidos com os nossos tratamentos de vanguarda”.

Humanização do cuidado

O ato de cuidar é um gesto de amor. Desde que fui fundado, a solidariedade, a empatia, o carinho e o olhar cuidadoso com o próximo são qualidades que me embasam e àqueles que estão comigo nesta caminhada. Desde o guarda e as atendentes nas portarias, a funcionária que traz o alimento, a que limpa o quarto, a que atende o telefone até os profissionais que estão na linha de frente da assistência, como técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos. Todos têm seu papel e contribuição para valorizar a humanização no atendimento.

Entre as iniciativas que enaltecem o trabalho humanizado estão Espaço Lúdico e de Atendimento Pedagógico às Crianças Hospitalizadas, Mães e Pais Arteiros, Método Canguru, Sorriso Voluntário, Cuidados Paliativos, entre outras ações. O programa Classe Hospitalar Escola de Vida, desenvolvido em parceria com Prefeitura Municipal, UPF e Ministério Público tem a nobre missão de oportunizar a construção de conhecimento, momentos de ludicidade e aprendizagem, para crianças e jovens com câncer. Outro projeto que traz alegria para os pacientes é a Terapia Assistida por Animais, que proporciona lazer, humanização e minimiza o estresse de quem está internado. 

Um olhar para o futuro

A providência divina me fez nascer para prestar serviços justamente no momento de maior precisão, por conta do alastramento da terrível pandemia da Gripe Espanhola. 100 anos se passaram e tenho a certeza de que fiz parte de muitas histórias e que são elas que me movem a fazer sempre o melhor. Aqui a vida não pára de acontecer e surpreender.

Eu sou o Hospital São Vicente, assim como meus 3700 colaboradores, mais de 700 médicos, vicentinos e todos aqueles que por aqui passam para restabelecer sua saúde. Celebro este centenário com a notícia alegre de ser um Hospital Acreditado pela ONA em nível 1, e esta novidade enche meus pulmões de ar e me dá mais vitalidade para seguir, com olhos fixos no futuro. Sigo zelando pela vida com segurança, responsabilidade e humanização. 



Créditos: Assessoria de Comunicação/HSVP

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