O Fusca caçador de marginais

Postado por: Júlio César de Medeiro

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No final da década de noventa, em um recém emancipado município gaúcho, ocorreu um fato pitoresco envolvendo um VW Fusca, um Ford Maverick e um assalto.

Numa madrugada, três larápios assaltaram o galpão de uma cooperativa, levando o carro do vigilante, um Ford Maverick, algumas armas e todo o defensivo agrícola que puderam carregar. Em certa altura, pouco antes do amanhecer, o Maverick pifou deixando os amigos do alheio encrencados à beira de uma estradinha poeirenta. Enquanto tentavam em vão ressuscitar o Maveco, avistaram um Fusquinha que vinha vagaroso da cidade, vislumbrando a oportunidade de fuga. Esse Fusca seria a passagem para safarem-se de vez. Porém, não imaginaram que o Fusquinha que se aproximava era a viatura da Brigada Militar.

No Fusca vinham um Soldado e seu Comandante. Ao notarem a atitude suspeita do trio, parado tão cedo em lugar ermo, desconfiaram. Os bandidos, prejudicados pelo lusco-fusco do amanhecer, só perceberam que era a Polícia quando o Fusca estava em cima deles. Pegos de surpresa, correram para esconder-se atrás do Maverick e a reação dos policiais foi imediata. A chuva de chumbo quente alcançou os meliantes antes que pudessem achar guarida sob a lata do Ford. Atravessando o Fusca na estrada, cobriram a lateral entre o Maverick e o barranco, impedindo que os bandidos se refugiassem.

O tiroteio ficou aberto e o Fusca recebeu uma dúzia de balaços, protegendo os Policiais. Apavorados, os bandidos escalaram o barranco e acabaram em campo aberto, no meio de uma lavoura de soja recém germinada. Correram pouco e, no descampado, ficaram desprotegidos. Nova carga de chumbo alcançou os marginais. Um deles tombou ali mesmo, manchando as plantinhas verdes de vermelho escuro. Os outros dispararam para um capão de mato do outro lado da lavoura. Na fuga deixaram o Maverick, espingardas, revólveres e munição à beira da estrada.

Suspeitando que ao menos um dos ladrões poderia estar armado e que pelo mato escapariam se retardasse a perseguição, o Comandante ordenou que o motorista retornasse à cidade, reunisse o o efetivo, que era somente mais um Soldado, juntasse o armamento disponível e voltasse ao local para iniciarem a perseguição. Ele ficaria, sozinho, na guarda dos bens, aguardando os reforços. No caminho deveria passar rádio para as unidades da região e pedir reforços. O motorista embarcou no Fusca e imprensou o acelerador contra a lata. Nunca havia exigido tanto do pobre cascudo e o Fusquinha não decepcionou, mesmo crivado de balas. Após percorrer o trecho de volta à cidade em tempo recorde e avisadas as guarnições vizinhas, o Fusca recolheu o outro Soldado e disparou em carreira insana. De volta ao local do conflito, organizaram a investida contra os bandidos. Enquanto o Comandante e um Soldado avançariam pelo costado do capão, o motorista e o Fusca avançariam pela lavoura quando eles corressem, empurrando os safados para a estrada.

Percebendo os marginais que os Soldados se aproximavam, atiraram novamente e correram para o meio da lavoura, como esperado. Ali então se depararam com uma cena que, não fosse contada pelos que participaram do ato, passaria fácil como mentira. Mas o Fusca, surgido de trás de uma coxilha e corcoveando pelo meio da lavoura entre a soja baixinha, avançava a toda velocidade contra os fugitivos, que em poucos metros já estavam sentindo o aço frio do para-choque nos seus fundilhos.

Mirando a dupla que agora corria apavorada do Fusca, o motorista aproveitou a velocidade crescente e literalmente atropelou um deles, atirando o corpo magro para cima. Aterrissou de costas na terra fofa e ali ficou estatelado, para nunca mais mover-se sozinho. O que escapou do para-choque do Fusca abriu fogo contra aquele arremedo de trator verde e branco que pulava pelas curvas de nível da lavoura no seu encalço. Errou todos os tiros, apavorado que estava. Rolando barranco abaixo, conseguiu chegar até a estrada, mas caiu nas mãos da guarnição que chegava como reforço.

Ao ser preso e algemado, ainda pode ver o Fusca no alto do barranco, cheio de furos de balas, e ouvir o ronronar da lenta do motor, sereno, com aquele ar de dever cumprido. Dois marginais mortos e um preso. Cem por cento de aproveitamento na empreitada.

Assim foi a estreia desse Fusca em sua carreira de caçador de marginais. Ainda outros causos envolvendo suas peripécias aconteceram e contaremos alguns por aqui, nas próximas semanas.

Grande abraço.

Este conto é uma adaptação livre, inspirado em fatos reais.

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