O resgate da Princesa

Postado por: Júlio César de Medeiro

Compartilhe

Certa feita nosso personagem mais recente, o Fusca caçador de marginais, viatura da Brigada Militar de um pequeno município do interior, atendeu uma ocorrência inusitada.

Voltava o Fusca de diligência em outra cidade, quando o Soldado que ia ao volante avistou ao longe, no fundo de um potreiro, uma silhueta estranha por sobre o campo. Destoava do verde claro do gramado aquela forma escura que lembrava, um pouco, uma pessoa obesa. Chovia pesado e a visão era limitada.

Por mais alguns quilômetros ficou com aquela imagem nos olhos. Nãopodia prosseguir. Deu de volta no Fusca e, novamente a beira do potreiro, colocou-se a fitar o volume imóvel no fundo do campo. Quanto mais apertava os olhos, mais lhe parecia ser uma pessoa deitada. Passou por entre a cerca de arame farpado e cruzando o potreiro a pé, aproximou-se do volume que jazia prostrado no chão molhado.

Realmente era uma pessoa. Uma mulher adulta, obesa, muito obesa. Enorme a mulher. Vestida de forma humilde, cabelo desgrenhado, olhos abertos, mente ausente. Respirava. Lentamente moveu os olhos, como que em câmera lenta, em direção da voz que lhe chamava. Não falou nada, nem se moveu. Apenas fitava o Soldado, mas era como se não o visse.

Insistiu um pouco mais o valoroso brigadiano perguntando seu nome, porque estava ali e se estava se sentindo bem. Como que emergindo de um poço profundo, a mulher contou de forma arrastada que seu nome era “Princesa” e que não morava ali. Também não sabia onde morava nem como havia chegado naquele potreiro.

Percebendo que não poderia fazer muita coisa pela desorientada “Princesa” e que tampouco seria prudente deixá-la no local sem amparo, decidiu que faria o resgate com o Fusca, para encaminhar a moça até o atendimento médico.

Agora a bravura do Fusca seria experimentada. Para chegar perto o bastante para embarcar a mulher, teria de subir um barranco, passar uma vala inundada pela chuva, cruzar o potreiro encharcado e ultrapassar um trecho de capim alto, que podia esconder pedras e buracos. Mas para o Fusca, que já havia mostrado seu valor tomando tiro e corcoveando atrás de marginais no meio da lavoura, foi barbada. A chuva aumentava e carregar a obesa senhora não foi assim tão fácil. Depois de muito esforço e alguns tombos do bravo Soldado, agora encharcado e embarrado até os cabelos, acomodou-se a opulenta passageira no banco do carona.

O Fusca rangiu estranho quando sentiu o peso, dando sinal de que a volta até a estrada não seria fácil. O capim alto e molhado foi vencido após algumas patinadas. O potreiro encharcado rendeu algumas derrapadas e exigiu mais do braço do motorista. Mas na vala inundada a situação ficou crítica. A primeira tentativa já mostrou que simplesmente atacar de frente não era boa ideia, custando um bocado tirar a frente do Fusca de dentro da água. A essa altura o encosto do banco do carona havia quebrado e “Princesa” repousava ocupando também o banco traseiro, deitada.

Um pouco mais acima a vala era mais estreita e foi por ali, que depois de embalar um pouco, o Fusca foi atirado contra a água com um estrondo de pneus, suspensão, barulhos de lata retorcendo e gritos de espanto da passageira, agora bem desperta e de olhos arregalados. Cruzou para o outro lado. Venceu o desafio. Descer o barranco foi moleza depois dessa.

O trajeto até o hospital foi tenso. “Princesa” estava nervosa, queria sair, falava palavras incompreensíveis, agitava os braços enormes e emitida sons guturais. O  Fusca também parecia nervoso, tremia, puxava o volante para um lado, fazia barulhos de lata arrastando no asfalto e com certeza o escapamento havia ficado no barranco. O banco quebrado rangia e a sinfonia de barulhos maléficos não ajudava a acalmar a passageira.

Chegando ao hospital, três Socorristas prontamente atenderam a viatura, desembarcando a passageira, com bastante dificuldade, e levando-a rapidamente para dentro, sumiram pelo corredor escuro.

Agora o Soldado podia se ocupar em avaliar a situação de seu amigo. Imediatamente percebeu que o barulho de lata no asfalto era o pára-choque traseiro, pendurado por apenas um braço e arrastando uma ponta no chão. O escapamento realmente havia sido arrancado, ao menos uma boa parte. Uma roda dianteira mostrava um grande amassado e o pneu um corte na banda lateral. A saia dianteira, na parte do berço do estepe, estava bem amassada. O para choque dianteiro, imprensado contra a lata estava reto. Além do banco do carona quebrado e de ter barro grosso até no teto. Mas o Fusca havia resistido bravamente. Um arame colocou o para choque traseiro de volta ao lugar e assim já podia, finalmente, voltar para casa e tratar suas feridas com mais cuidado.

Mais tarde se soube que “Princesa” na verdade era Salete, interna do hospital psiquiátrico da cidade. Que passava bem e que a família era muito grata ao Soldado que a havia resgatado da chuva e do frio, do fundo de um potreiro, com um Fusquinha.

Leia Também 25º Domingo do Tempo Comum. Municípios devem participar do censo SUAS O político honesto e seu Fusca. Uma incrível história real. Sabedoria