Cadê a vovó?

Postado por: Adalíbio Barth

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A paróquia necessitava de um novo salão, pois o antigo, construído de madeira, não tinha mais condições de uso. Todavia, fora construído com muitas doações, nos bons tempos em que havia abundância de madeira em nossos matos. Pelo cálculo da comissão construtora, essa madeira seria suficiente para os andaimes e os painéis dos pilares e vigas de concreto. Ao desmanchá-lo, portanto, nada seria vendido ou doado, até a conclusão das obras.

E assim foi. Um grande mutirão da comunidade pôs abaixo o velho salão de muitas promoções comunitárias. Os pregos foram tirados e tudo foi cuidadosamente empilhado, para facilitar os trabalhos da construção de um ginásio de esportes.

Passaram-se alguns dias, veio uma comissão de jovens vicentinos, que visitavam regularmente uma vila atendendo às necessidades de muita gente carente. Numa casa encontraram uma situação difícil: a vovozinha junto com a filha, o genro e os netos tornou-se de difícil convivência. Tencionavam colocá-la para fora da casa.

Os jovens, vendo essa situação insustentável, apresentaram uma solução rápida: fazer uma casinha ao lado, somente para a vovó. E isso seria fácil: basta o padre e a comissão das obras do novo salão da paróquia concordar na doação do material necessário, uma vez que havia muito material estocado. Nas reuniões provocadas pelos jovens, a negativa em nada lhes agradava.

O padre alertava:

- Não adianta dar-lhes uma casa pronta, pois, vão vendê-la uma semana após a inauguração.

Ao final de muitas reuniões, a comissão concordou na doação do material necessário, antes de empreender a nova obra do salão. Assim terminariam também os juízos levianos que estavam fazendo, criando mal-estar na comunidade.

Em pouco tempo a casa para a vovozinha estava pronta. Conseguiram profissionais voluntários: pedreiros, carpinteiros, eletricista, encanador, pintores. Inauguram-na com muita festinha.

Duas semanas após a inauguração, num sábado de tarde, apareceu todo o grupo de jovens na casa paroquial. Já de longe, gritavam:

- Padre, o senhor tem razão, desculpe, mas está com toda razão!

- O que houve? - perguntava-lhes surpreso, pois não podia imaginar o sucedido.

O grupo de jovens foi visitar a velhinha, para sentir a sua alegria pela nova casa. Ao bater na porta, foram atendidos por um senhor forte, mal-encarado e de olhar provocativo.

- Viemos visitar a vovozinha – disseram os jovens.

- Ela não mora mais aqui. Esta casa é minha. Eu a comprei. E vocês se arranquem logo daqui, porque senão vão ver o que está reservado – mostrando-lhes um facão três listras.

O grupo correu até a casa paroquial para dar razão ao padre.

O assistencialismo não provocou mudanças na sociedade. Há casos em que não se pode exigir contrapartida. Temos os pobres de misericórdia, como os aleijados, os portadores de necessidades especiais, que não têm como participar com alguma parte. Mas os espertalhões estão sempre de plantão. E a ganância e a cobiça não tem idade. O coração humano, tanto da pessoa rica, como do pobre, é insaciável e avarento.

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