Os Uber´s e os Fuscas, muitas semelhanças

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Em tempos de disputa entre taxistas e motoristas de aplicativos, lembro de quando, bem antigamente, uma briga parecida aconteceu. Os mais velhos vão lembrar, com certeza, que o serviço de táxi nem sempre foi assim, como é hoje.

No princípio, o serviço particular de transporte de pessoas era bem mais, por assim dizer, seletivo. Bem nos primórdios os carros de praça, que receberam esse nome por ficarem estacionados nas cercanias das praças centrais, em locais estratégicos, eram grandes carros com quatro portas, confortáveis e com muito espaço, procurados por pessoas de maior poder aquisitivo. Os preços das corridas eram elevados, tornando o serviço acessível para poucos. Além da classe mais abastada, também eram usuários desses carros de praça os boêmios, que ao final da noitada queriam regressar para seus lares.

Com o gradual aumento da população e também do poder econômico nas grandes cidades, na década de 70 um fato impactou o mercado dos carros de praça causando uma profunda transformação. Apareceram aqueles besouros barulhentos e apertados, que fediam a gasolina e não tinham o banco dianteiro do carona, para facilitar o embarque e desembarque do passageiro. Aquele mesmo, o que tinha uma corda amarrada na porta do passageiro para o motorista fechar a porta sem ter que descer do carro.

Sim, quando o Fusca começou a ser usado como táxi, causou uma revolução.

Esses avulsos, como eram chamados, com seus Fuscas, não pertenciam a nenhum ponto de táxi, não faziam parte da turma, ficavam rodando pelas ruas, nos arredores dos hospitais, bancos, escolas, fábricas, espreitando clientes.

Aceitavam qualquer passageiro, mesmo os que os chamavam por um assobio ou um sinal na rua. Sim, os Fuscas chegaram bagunçando o coreto dos carros de praça.

Bem mais econômicos que os antigos carrões, com uma manutenção muito mais fácil e barata e também mais ágeis no trânsito, passaram a incomodar. Muito.

A clientela não demonstrava constrangimento algum em embarcar naqueles minúsculos carros. Valia mais a certeza de chegar antes e gastar menos. Os boêmios então, viraram fãs dos Fusquinhas táxi.

Então os motoristas de praça começaram a se organizar para barrar os Fusquinhas. Trancavam a passagem quando podiam. Perseguiam os besouros quando estavam sem passageiros. Formavam bloqueios, sabotavam os carros, jogavam para fora da estrada. Até tiro, facada e bomba aconteceu.

Com toda essa agitação nas ruas, a questão ganhou notoriedade.  Discussões nos bares, no Legislativo, nas rádios, gente contra e a favor da novidade e a busca pela regulamentação do serviço. Tudo em vão.

Acontece que os antigos carros de praça foram gradativamente perdendo mais e mais espaço para os Fusquinhas. A alternativa racional mostrava-se uma só. O tempo é implacável e chega para todos.

O Fusca ganhava espaço na rua a cada dia e não havia mais sentido em manter as enormes banheiras no serviço. Logo surgiram cooperativas de transporte, frotas de Fusquinhas e até locadoras de Fuscas especialmente preparados para o serviço de transporte de passageiros.

Claro que alguns carrões resistiram por mais algum tempo, aproveitando o nicho dos passageiros endinheirados ou dos que não simpatizavam com o Fusca. Mas logo outras opções surgiram como o Ford Corcel com quatro portas, Chevrolet Opala e Chevette ou mesmo o VW Passat. Porém, até meados dos anos 80, a maioria esmagadora das frotas de táxis das grandes cidades era composta por Fusquinhas.

Então, toda essa atual discussão entre taxistas e motoristas de Uber, Cabify, 99, Easytaxi e tantos outros aplicativos, não é nenhuma novidade. Há quase 50 anos já ocorreu algo bem semelhante que transformou uma realidade.

Sobreviveram aqueles que souberam se adaptar.

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