Medo de um protestante

Postado por: Adalíbio Barth

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Em nosso colégio de internato, nos idos dos anos cinquenta, todos os meses, as aulas eram suspensas em determinado dia e para surpresa geral, era anunciado um grande passeio. Caminhava-se para uma propriedade rural, onde havia um campo de futebol, pois, um torneio era programado como atração esportiva daquele dia. O local do passeio variava muito, conforme os convites que vinham. De manhã, o padre reitor dava todas as recomendações para o dia, para que tudo transcorresse bem e todos tivessem o máximo de proveito.

Num dos passeios, além dos tradicionais avisos, constava uma recomendação especial. Entre outras coisas, foi aconselhado:

- Vamos fazer nosso passeio numa propriedade que é de um protestante. Então vocês se cuidam muito para não dizer bobagens e ofender o proprietário.

E continuou a explicar um pouco mais sobre o protestantismo e o protestante. Mas ninguém dava muita atenção aos avisos, pois todos já estavam prontos para partir, com mochila às costas.

O dia foi maravilhoso. O local aprazível e um campo de futebol convidativo para um apreciado torneio de futebol. Antes disso, eram disputadas algumas tradicionais competições: corridas rústicas, corridas em sacos, corridas com um ovo numa colher e assim por diante.

O torneio de futebol ocupava a maior parte da atenção dos alunos. Outros caminhavam pelo mato que circundava o campo, à procura de cerejas, pitangas e gabirovas, outros olhavam um senhor alegre e feliz que assava um churrasco e dava toda atenção à gurizada.

Ao meio dia, o reitor agradeceu ao benfeitor amigo, que ofereceu o local do passeio, bem como do churrasco e todos bateram palmas e cantaram um canto de agradecimento. Após uma oração, foi distribuído um espeto de carne para cada três, acompanhado de saladas e um gostoso pão de padaria.

E o dia passou rapidamente. Antes da noite todos voltaram para casa, cansados pela caminhada e pelos esportes praticados.

Já em casa, após uma pequena avaliação do dia, todos foram descansar. Mas o que chamou atenção de todos os meninos foi a pergunta de um deles, que sempre se julgava um esperto, com ar de intelectual:

- De manhã, o padre recomendou muito para se cuidar de um protestante que estaria lá. Eu já não entrei no mato, com medo de encontrar um lá dentro. E eu não vi nenhum.

O coitado do adolescente, nunca ouvira este termo. Confessou posteriormente que entendera ser um bicho, tipo cobra ou lagarto, mas não aquela pessoa atenciosa que assou o churrasco e lhe deu muita atenção durante o dia. A gafe do guri custou-lhe o apelido de “protestante” até hoje.

Como é difícil a comunicação. Supõe-se demais e se explica muito pouco. Os adultos têm uma carga histórica de preconceitos e conceitos que torna difícil uma mudança. Entre pessoas de diferentes convicções religiosas, às vezes, se estabelecem barreiras motivadas por sentimentos que se tornam difíceis de transpor. E no mundo do sentimento, a razão não funciona.

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