Armando, Nicanor e Itamar.

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Hoje compartilho um causo que me foi contado há alguns anos, em um dos tantos encontros de Fuscas, pelo filho de um grande amigo. Os nomes e circunstâncias foram alteradas, para preservar a família, mas a história é verdadeira.

Seu Armando era um daqueles senhores que apenas pelo semblante se conseguia ver a seriedade e honestidade. Homem pacato, afável, bom vizinho, bom pai e bom marido. Dono de um pequeno comércio em um bairro, passava seus dias no balcão, junto da família. Um dia, ganhou um filhote de cachorro em um sorteio e sua vida mudou para sempre.

Diz o ditado que quem não gosta de cachorro, bom sujeito não é. Se é verdade não sei, mas o seu Armando gostava muito e era uma pessoa muito boa. Seu amor pelos cães era evidente ao vê-lo com o seu companheiro, um rough collie (igualzinho a Lassie dos filmes da Sessão da Tarde), o Nicanor. Um cão espetacular, lindo, garboso, um doce com as crianças e fiel ao seu dono como só um cão pode ser.

Nicanor e Armando viviam grudados. Desde que a bolinha de pelos de 3 meses chegou, não passaram sequer um dia separados. Onde um estava, o outro estava. Todo mundo já sabia: se o Nicanor estava na esquina, seu Armando estava também. Se o seu Armando estava no mercado, o Nicanor estava sentado na porta esperando. Se o Nicanor estava deitado na porta da loja, com certeza seu Armando estava lá dentro. Andavam pelo bairro todo, lado a lado, sem coleiras ou guias, para nenhum deles.

Mas a idade chega para todos e nunca vem sozinha. Depois de uns 10 anos, tanto seu Armando quanto Nicanor passaram a conviver com doenças da velhice. Seu Armando, recém passado dos 60 anos, já brigava com a diabetes e a pressão alta. Nicanor sofria com a displasia de anca e com a cegueira, características da raça.

Os passeios diários, que antes eram uma diversão, haviam virado um tormento. Andar de uma esquina à outra era tarefa difícil, dolorida e cansativa para ambos. Até que chegou o Itamar.

Itamar era um Fusca Itamar 1994, branco. “Feio, forte e formal”, dizia seu Armando apontando para o Fusca, “igual o John Wayne do velho oeste”, completava. Essa frase, “Feio, forte e formal”, está na lápide do ator americano, ícone do gênero cinematográfico falecido em 1979.

Itamar passou a ser o fiel escudeiro da dupla. Sob chuva ou sol, dia ou noite, a trabalho ou a passeio, os três estavam sempre juntos. Seu Armando na direção, cantarolando alguma música que tocava no rádio e Nicanor no banco traseiro, sentado ou deitado, muito à vontade. Conheceram parques novos, bairros novos, praças, fizeram novos amigos, cachorreiros e fusqueiros como eles e viveram assim mais alguns bons anos.

Um dia, Nicanor morreu. Seu Armando no mês seguinte.

Os veterinários disseram que as doenças e a idade avançada haviam debilitado demais o Nicanor. Os médicos disseram que as doenças e a idade avançada haviam debilitado demais o seu Armando. Mas todos sabiam que seu Armando morrera de tristeza. Perdera seu companheiro, seu amigo, seu irmão.

Restou apenas o Fusca, o Itamar. Também passou muito tempo doente, debilitado, preso em seu túmulo de concreto, esquecido na garagem, suportando a solidão e a escuridão até que um dia, sem mais, nem menos, sumiu para todo sempre. Possivelmente a família tenha vendido o carro.

Mas todos que conheceram o trio Armando, Nicanor e Itamar preferem pensar que o Fusca também morreu. Foi finalmente juntar-se com seus amigos, para um último e eterno passeio.

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