O cão, o trigo e o Fusca

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Morávamos no interior e às vezes vínhamos para a cidade. Meu pai tinha um Fusca bege trigo. Eram viagens divertidas em família. Eu e minha irmã brincávamos de vaca amarela, de adivinhações ou de mímica. Nem víamos o tempo passar.

Entre tantas, uma viagem foi marcante. No final de tarde, o Fusca rodava suave pela rodovia. O brilho dourado do trigo maduro sob o sol poente era uma linda paisagem.

Um cão da cor do trigo corria assustado a beira da estrada. Estava longe ainda.  Só eu vi. Quanto mais nos aproximávamos, mais assustado ele parecia.

Meu grito saiu abafado quando o corpo do cão chocou-se com o Fusca. Aos solavancos o Fusca invadiu a plantação e parou em meio ao trigo. Pelo vidro pude ver o cachorro rodopiando pelo asfalto até parar no acostamento, morto.

O silêncio de alguns segundos foi quebrado pelo choro da minha irmã. Minha mãe tentava a consolar. O pai nervoso tentava dar a partida no Fusca, apontando algumas pessoas que corriam em nossa direção.

O Fusca tossia, tossia e não pegava. As pessoas correndo, cada vez mais próximas. Já podia entender o que gritavam: “ Desgraçado! Matou meu cachorro! Desgraçado! Meu cachorro! ” Então entendi o nervosismo do pai.

Quando o povo que corria estava perto o bastante para vermos o branco dos seus olhos arregalados, o Fusca finalmente pegou. Ganhamos o asfalto. O restante da viagem em silêncio, atônitos.

O pai consertou o Fusca e o vendeu. Restaram as memórias, perdidas no fundo da mente e que vem a tona somente quando passo por aquele lugar.

O cachorro rodando no asfalto, as pessoas correndo furiosas, o Fusca no meio da lavoura e o dourado do trigo naquele final de tarde.

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