Maldita C10

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Em um sábado enferruscado que anunciava chuva a qualquer momento, fomos ajudar a reformar um galpão na chácara do meu avô materno. Éramos eu, meu pai, meu avô paterno, minha mãe e minha irmã.

Espremidos num Fusca que meu pai tinha na época, rodamos sem problemas pelos vários quilômetros de estrada de chão até a chácara. Trechos de pura pedra e de terra fofa se alternavam na estradinha que levava até o interior do município.

Quase no fim da tarde, já com os primeiros pingos da chuva e encerrada e empreitada, nos esprememos novamente no cascudo para retornar para casa.

Nessa estrada havia uma ponte em curva, com um riozinho estreito que corria por sobre algumas pedras. Essa ponte era feita com aqueles tubos de concreto enterrados, sem muretas nas laterais nem qualquer segurança. Eram outros tempos, final dos anos 80 do século passado.

Quando alcançamos esse pontilhão já chovia forte e a estrada estava um lodo só. Os besouros são valentes no barro e mesmo dançando e patinando, o Fusquinha vinha vencendo a estrada lamacenta. Depois da ponte em curva a subida era forte e por isso o Fusca vinha embalado.

 Mas, ao entrar na curva demos de cara com uma Chevrolet C10 que vinha embalada pela contramão. Deu tempo apenas de puxar o volante e evitar a colisão frontal. Chocou-se o canto da C10 com a lateral traseira do Fusca, que parou acavalado na beira da ponte, com as rodas da frente balançando soltas no vazio por sobre a água.

Desceram meu pai e meu avô para ver o tamanho do problema. Da C10 não desceu ninguém. A chuva aumentava e quase não se podia ver um palmo à frente do nariz. Meu pai conversava à janela da C10. Logo depois ela partiu. Maldita C10.

Meu pai espumava pelo canto da boca. Não quiseram ajudar porque não podiam se atrasar e nem se sujar no barro. Podiam ter nos rebocado sem esforço, mas não. Foram embora e nos deixaram lá, pendurados na ponte. Maldita C10.

O Fusca patinava, patinava, corcoveava e não saía do lugar. Então meu avô usou um pedaço de tronco de árvore para fazer uma alavanca e empurrar o Fusca. Pronto, estávamos novamente na estrada. Agora era só seguir viagem. Os estragos no Fusca eram a menor das preocupações. Para choque traseiro arrancado e para lamas amassado.

Porém, sob chuva intensa e com a subida forte, o Fusca lotado não tinha forças para vencer o lamaçal. Tentamos uma, duas, dez vezes. O carro afundava até encostar o assoalho no barro, patinava e não saía do lugar. Pobre cascudo. Maldita C10.

O jeito foi apelar. Meu pai e meu avô saíram sob a chuva para procurar ajuda. Já no escuro da noite voltaram com um trator. Uma corda amarrada na suspensão dianteira terminou de escangalhar o Fusca. Quando o trator esticou a corda, arregaçou a lataria da frente do Fusca, destruindo para lamas, farol, para choque e capô do porta malas. Mas nos tirou do barro e pudemos, enfim, rumar para casa.

Desde então, nutro uma forte antipatia por Chevrolet C10. Maldita C10.

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