História sem fim

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Mário era um admirador de carros antigos, especialmente fuscas. Durante muito tempo procurou pelo carro certo, pelo carro dos seus sonhos. Um dia achou. Bateu o olho e comprou. Foi a chamada “compra por impulso”.  Não foi exatamente barato, mas era o que ele queria, estava à venda e ele podia pagar.

O fusca era um 1967 bege Nilo, com o interior em vermelho Turim. Mas estava longe de ser considerado um carro em bom estado. Conforme usava o fusca, problemas e mais problemas apareciam. Mário ia resolvendo um após o outro, obstinado.

Na primeira semana o cabo do acelerador arrebentou. Depois a embreagem arrebentou. O escapamento furou. O limpador do para brisas queimou. Os pneus carecas sempre murchos pela manhã. A bateria sempre morta pela manhã. O freio ruim. As máquinas dos vidros ruins. O cheiro de gasolina que ardia as narinas.

E mais. O marcador do nível de combustível pifou. A porta do carona abria nas curvas. O banco do motorista quebrou. A folga no volante virou férias no volante. A quarta marcha escapava. Depois a segunda. Depois trocou a caixa de câmbio.

No cofre do motor mais problemas pipocavam. Velas, cabos de velas, distribuidor, rotor, tampa do distribuidor, platinado, condensador, bomba de gasolina, dínamo, carburador. Um após o outro iam entregando os pontos e Mário os consertava ou substituía. Por fim, o motor fundiu. Os gastos com a manutenção do fusca já haviam passado em muito o dobro do que havia pago ao comprá-lo.

Passou de cliente a amigo do peito do seu mecânico. Era convidado para os churrascos da oficina e comprava fiado nas auto-peças da cidade.  O fusca mais passava ancorado na mecânica que rodando. Até que depois de muito tempo, os problemas mecânicos foram praticamente todos resolvidos e Mário podia rodar tranqüilo com seu carro. Ou quase isso.

O tempo não havia sido gentil em mais de 50 anos de exposição ao sol e a chuva. O fusca estava com a lataria bem ruim. Mais um amigo chegou então, o chapeador (ou lanterneiro). Paralama, saia, caixa de ar, capô, mini-frente, chapéu de Napoleão, pé de coluna, assoalho e os códigos das cores da VW passaram a ser vocabulário corriqueiro. O que havia para recuperar foi recuperado. Mário não tinha mais aquela empolgação do dia em que comprou o fusca. Agora era mais como uma missão. Terminar o carro. Deixar do jeito que foi sonhado.

Se o gasto com a mecânica foi enorme, a recuperação da lataria foi muito mais. O preço pago no fusca agora era irrisório perto da restauração que já havido sido feita.

E então, quando o fusca recuperou o brilho dos primeiros anos, era hora de recuperar a tapeçaria e estofados. Outra novela mexicana. A cor correta para o ano, o desenho correto, os painéis das portas, a estrutura dos bancos, carrapatinho ou tapete de vinil? Couro natural ou vegetal?

Enfim, após longos anos de muito investimento, suor e lágrimas, Mário estacionou o fusca em casa em um fim de tarde, sentou-se na varanda e declarou: está pronto, ficou do jeito que eu sonhei. A emoção não cabia no peito. Era uma missão cumprida. Uma batalha vencida. Um troféu.

No outro dia arrebentou o cabo do acelerador. Morreu a bateria e o fusca continuou a dar defeitos regularmente, como qualquer outro carro antigo.

Assim é a vida de quem gosta de carro antigo. Mais que um objeto, é um sonho, é uma história. As vezes uma história sem fim.

 

 

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