A linha fusquealógica do seu Sinval

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Seu Sinval, além de meu vizinho no condomínio, é um fusqueiro antigo e conhecido na cidade e nos encontros de fuscas da região. É tão aficcionado pelo carrinho que sabe de cor o código das cores por ano de fabricação, modelo das lanternas, da forração interna, os códigos dos motores e outras coisas. Mais que isso, seu Sinval é aquele tipo de fusqueiro que não admite transformações nos carros, um purista. Adaptações, modernizações, alterações, jamais. Peças só VW originais. Oficina só a autorizada. Nada de acessórios que não sejam de época. Inclusive, para ele o melhor fusca de todos foi o 1500 de 72, forte e econômico, com os detalhes em jacarandá no painel (dane-se que era plástico imitando madeira). Para ter uma ideia do nível de “purismo” do seu Sinval, ele afirma que o fusca no Brasil morreu em 1986 e o resto é Zito Pereira (itamarzeiros saberão do que estou falando).

Pois bem. Seu Sinval tem um neto que mora na capital. Recentemente o neto completou 18 anos e tirou a carteira de motorista. Para coroar a data da maioridade e a chegada da CNH do único neto, seu Sinval, claro, o presenteou com um fusca. Mas não um fusca qualquer. Um fusca 1972, motor 1500 e com o interior em jacarandá. Imaculado, nunca batido, original de ponta a ponta, muito pouco rodado, em que até os parafusos tinham o símbolo VW. Coisa de cinema. Ou melhor, de museu. Foram três anos de intenso trabalho para deixar o besouro do jeito que seu Sinval queria: um típico representante da raça, um VW original por dentro e por fora, um autêntico fusca raiz.

A surpresa da entrega do carro foi emocionante. O avô visivelmente emocionado discursou, declarando-se aliviado por ter em quem depositar seu legado na preservação do fusca e sua história. É que o filho do seu Sinval odeia fuscas. Dizia sempre em alto e bom tom que seu pai durante a vida toda dera mais importância para os “fedidos” que para a família. Assim, o neto era seu sucessor natural na linha fusquealógica da família.

Uns dias atrás notei que seu Sinval andava jururu. Sempre muito falador, agora andava bem quieto, cabisbaixo, esgueirando-se pelas sombras do condomínio. Nos encontramos ontem à tarde na garagem onde ele, sabendo que também sou fusqueiro, acabou por desabafar.

Praticamente chorando contou que seu neto o havia traído da forma mais vil e baixa possível. Que tinha certeza que o pai do rapaz, seu filho, era o responsável. Que havia perdido a alegria de viver e que providenciaria um testamento, pois seus dias estavam se encerrando. Estou morto por dentro, dizia ele batendo no peito. Cena dura de se ver um homem velho embragando a voz e marejando os olhos.

Pois não é que o netinho pegou o fusca imaculado, presente do vovô e meteu grandes e vistosas rodas 17” cromadas, pneus de perfil baixo, socou o carro no chão, montou um som monstro e, para completar a desgraça (palavras do seu Sinval) trocou o motor aircooled por um AP 1.8 com um turbo e “treisquilemei” de pressão?

Rompida a linha fusquealógica.

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