A kombinha do Ataliba

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Ataliba era o dono de um pequeno negócio em uma cidade do interior, um bodegão de secos e molhados. Entre tantos secos e molhados da região, o bodegão do Ataliba se destacava e os negócios iam de vento em popa. É que ele tinha um trunfo. Ataliba tinha uma Kombi.

O grande diferencial do bodegão do Ataliba é que ele entregava as compras na porta da casa do cliente. Recebia as listas de compra e combinava dia e hora para a entrega. E entregava como?  Com sua Kombi, claro. Isso fazia muita diferença em uma época em que poucos tinham carros e quase todos moravam no interior. E foi assim por muitos e muitos anos.

Contudo, com os anos 80 vieram as dificuldades e as vendas caíram vertiginosamente. O passar do tempo, a evolução da sociedade, a nova dinâmica das cidades e todo esse papo de capitalismo, especialização dos serviços e evolução de mercado não afetaram o negócio do Ataliba. O problema, dizia ele, era que seus clientes envelheciam e sem mais nem menos, morriam. E foi depois dessa espetacular conclusão que Ataliba mudou de ramo.

Aproveitando a onda crescente de mortes da clientela, Ataliba transformou seu bodegão em uma... funerária! Sim, a primeira funerária da região. Uma empresa de prestação de serviços mortuários que atendia o “cliente” desde o local do falecimento até a morada eterna, passando pela preparação do corpo, trâmites burocráticos, escolha do féretro, velório, cortejo e finalmente, o sepultamento.

E adivinha qual o meio de transporte que Ataliba usou por muito tempo em seu novo empreendimento? Claro, a Kombinha. Mandou pintar de preto, instalar uma sirene e gravar nas portas o nome da empresa.

Essa guinada fez muito bem para os negócios de Ataliba que logo se tornou um empresário de destaque no ramo fúnebre. Cresceu, expandiu, ampliou o leque e a área de atuação, mas nunca se desfez do seu maior trunfo, aquela que estava com ele desde o início.

Exposta na garagem da empresa está a kombinha do Ataliba, que deixou de carregar compras e mortos e hoje só anda a passeio.

 

 

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