O preço das passagens

Postado por: João Altair da Silva

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A decisão inédita da justiça de suspender o reajuste no preço da passagem do transporte coletivo em Porto Alegre, alertou ativistas de Passo Fundo. Iniciou uma onda de protestos na cidade, que também teve a tarifa reajustada em 10%, passando para R$2,70. Tenho recebido pedidos para que me manifeste sobre o caso. Ei de concordar que o preço da passagem é caro. Um passageiro que necessite usar quatro ônibus por dia, com uma folga por semana, gastará R$ 280,00 por mês. Esses R$ 280,00 representam 33% de um salário de R$ 840,00 que é a média recebida pela grande maioria dos jovens que estão ingressando no mercado de trabalho. Desculpem meu raciocínio de economista, mas a ciência que ensina aplicar os recursos escassos está presente no nosso dia a dia. A pessoa física ou jurídica que comprometer 30% de seu faturamento somente com transporte, irá par o SPC.

É preciso analisar a situação das concessionárias. Diferente de qualquer outra empresa elas têm o privilégio não só de estarem imunes a inadimplência, como de receberem, em partes, adiantado. Em síntese se não tiver dinheiro ou o vale não anda de ônibus. Aqueles que compram um lote de passagens pagam à vista para usar até 30 dias depois. Outra vantagem é estarem num mercado oligopolizado, o que é típico de serviço concedido, não se pode praticar serviço semelhante, embora enfrentem a concorrência indireta do táxi, do veículo particular. Por outro lado, se um brigadiano, um policial civil, um agente penitenciário, um idoso, um estudante, um carteiro, forem às compras no supermercado, terão que passar no caixa para pagar a conta. Pois esse grupo, exceto estudantes que pagam meia tarifa, são isentos no transporte coletivo. Um motorista que faz a linha Vera Cruz/São Cristóvão, contabilizou 131 passageiros no percurso 57 eram isentos, 64 pagaram, ou seja, tiveram que bancar a conta dos demais. O preço da passagem poderia ser mais barato se todos pagassem um pouco. A pergunta é porque um policial, por exemplo, que embora não tenha um salário alto, ganha mais que a média do trabalhador, está num quadro de carreira, pode andar de graça. Porque o empacotador de supermercado que recebe salário mínimo não tem esse direito? Porque um aposentado que tem salário garantido não paga e um desempregado não goza do mesmo benefício? Por isso que defendo a ideia de que todos devem pagar um pouco, inclusive, os aposentados. Aqui se trabalha para reduzir a idade para idoso viajar de graça, enquanto o IBGE informa todos os anos que o tamanho dessa faixa etária é cada vez maior.

Normalmente o legislador se comove com esses apelos corporativos. Em Passo Fundo, o então vereador Juliano Roso conseguiu convencer seus pares a aprovarem o beneficio da meia passagem para estudantes mesmo em períodos de férias. Alguém está tendo que pagar essa conta. Agora, do outro lado, no Executivo, como vice-prefeito, tendo que administrar os recursos escassos, inclusive, na Codepas que pediu o maior índice de aumento, teve que conceder reajuste de 10%, um índice que destoa de qualquer número da economia, a inflação do ano passado foi de 5,84%, o país cresceu menos de 3%, índice que não deverá ser superado nesse ano. Sou favorável ao benefício da redução ou isenção para deficientes físicos e para estudantes, pessoas que estão se preparando para o trabalho, que ainda não têm salário, até porque transporte para estudantes é um dever do Estado, os municípios pequenos pagam ônibus para todos seus alunos indistintamente do grau de instrução e da distância de uma cidade para outra. Para esses, no entanto, tem de ter subsídio do Estado/Prefeitura, como já ocorre em algumas cidades, pois uma empresa privada não tem a obrigação de transportar meu filho de graça. Quem tem de bancar os custos do estudo dele sou eu o Estado que, constitucionalmente, deve garantir a educação.

Sem resolver esses gargalos, não acredito em redução no preço da passagem. E será uma necessidade. A frota de carros de Passo Fundo aumenta 10% ao ano. O trânsito não suporta mais tanto carro. No espaço onde circulam três automóveis com quatro ou cinco ocupantes , anda um ônibus com 40 passageiros.

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