O fusca e o circo

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Lembro de uma vez que chegou por aqui um circo. Lembro bem que caravana era composta por carros velhos, bem judiados: um Chevette, uma C10, uma Scania 110 que carregava a lona, camarim, bilheteria e todo o resto e, no final da fila, um fusca vermelho.

Instalados em um terreno a margem da vila, o fusca começou a rodar com um megafone no teto e o motorista anunciando, ao vivo, as atrações do Gran Circo Torrone: malabaristas, acrobatas, mágicos, Fumaça, o cão mais esperto do mundo e o palhaço Torresmo e seus amigos.

Claro que a noite todos estavam lá, crianças que éramos, pilhados de emoção esperando as atrações. 

Primeiro os malabaristas com seus pinos de boliche, bolas e pratos. Depois o mágico da cartola amassada. Flores, lenços, algumas pombas e papel picado brilhante.

Em seguida os acrobatas, 3 apenas, balançando acima do picadeiro sem proteção nenhuma, saltando de um trapézio para o outro. Muito maior o medo de um acidente do que realmente uma emoção pelas acrobacias.

Depois veio o cachorro Fumaça, o cão mais inteligente do mundo. Na verdade era um vira-latas amarelo, magro e que ficava correndo atrás do dono por cima de tábuas, por dentro de canos e dando saltos por um pedaço de comida. Um pouco deprimente na verdade.

Mas eu esperava pelos palhaços. Mantinha um misto de ansiedade e medo. A figura com maquiagem pesada e roupas espalhafatosas nunca é território tranquilo para crianças.

Era a atração principal. Após um rufar de tambores vindo de alguma fita cassete, apagaram-se as luzes e o holofote focou o fundo da lona, de onde surgiu nada mais, nada menos, que o fusca da caravana, cheio de fitas, papéis coloridos, soltando fumaça, balões, estouros, papel picado e lotado de palhaços. 

Fiquei com a impressão de todos os artistas que já haviam se apresentado agora eram palhaços, saindo um atrás do outro de dentro do fusca. Eram uns 10 ao menos. Piruetas, tombos, tortas na cara. Até o cachorro  Fumaça corria atrás de um ou de outro, puxando a barra da calça e latindo sem parar. 

Após uns 15 ou 20 minutos de correria e palhaçadas sem sentido, o gran finale foi com todos os palhaços empilhados no fusca, em pé nos para-choques, nos para-lamas, na tampa do porta-malas, no teto ou com meio corpo para fora das janelas em uma verdadeira torre humana colorida sobre um fusca em movimento. Uma, duas três voltas no picadeiro. O fusca soltava fogo e fumaça pelo escapamento, uma sirene ensurdecedora tocava e no apagar das luzes o fusca sumiu atrás da cortina. Fim do espetáculo. 

Durante uma semana, enquanto o circo esteve ancorado em minha cidade, voltei todas as noites. Não pelo mágico ou pelo cachorro Fumaça. Nem pelos malabaristas ou pelos acrobatas. Voltei por causa do fusca. Porque me enchia os olhos aquele fusca que durante o dia era tão e simplesmente um meio de transporte/locomoção e que a noite se transformava em algo vivo, lotado de palhaços pendurados, rodando voltas sem fim em um redemoinho louco e psicodélico de luzes, sons, fumaça e cheiro de óleo queimado.

 

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