Tempo de saudades e bergamotas

Postado por: Júlio César de Medeiro

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O outono, em minha opinião, é a estação mais agradável de todas.

Os dias começam a ficar mais curtos, as manhãs mais frias, já se pode dormir com um lençolzinho e aquele casaquinho passa a nos acompanhar durante o dia.

 É a estação das bergamotas, laranjas, tangerinas. Já se pensa nos vinhos, na lenha para a lareira e as avós se ocupam em lavar as roupas de lã. Os dias são mais cinzas, as árvores perdem suas folhas e o vento nos lembra que em breve o frio chegará.

Tudo isso torna o outono a estação que mais combina com a saudade. Saudade de quem já se foi, saudade dos tempos antigos, das músicas boas, de um amor perdido, do amigo que há tempos não encontramos. Saudades da escola, dos bailinhos, de viagens, pescarias, acampamentos, lugares, pessoas e coisas. E saudades de um carro, por que não?

Hoje senti saudades da VW Variant que foi do meu avô. Saudades daquele portamalas onde podíamos nos deitar de todo o comprimento. Podíamos dormir ali, tranquilamente.  Tudo o que jogássemos na Variant se acomodava e sempre sobrava lugar.  Nos bancos, mais espaço. Uma família inteira viajava tranquila, sem aperto. Rodava macia, num silêncio agradável, nos brindando com uma visão incrível pela suas enormes janelas.

Saudades de, sentados na beira do portamalas, pernas balançando, comer bergamotas recém colhidas do pomar do meu avô, sob o sol ardido da tarde, com a única preocupação de não deixar cascas e sementes dentro do carro. Saudades de escutar a fita cassete do Galpão Crioulo de 1985, bem baixinho, para que os adultos não descobrissem. Saudades de fingir que dirigia a Variant em viagens intermináveis até cidades nunca vistas para encontrar amigos importantes, buscar objetos preciosos ou entregar um documento confidencial.

O outono é um tempo propício para essas saudades e, quem sabe, até revivê-las.

Vou ali comprar umas bergamotas.

 

 

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