Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações

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  • O Dia Mundial das Comunicações será comemorado neste domingo, 2 de junho. Acompanhe a mensagem do Papa Francisco para esta data:

    “Somos membros uns dos outros” (Ef 4, 25):
    das comunidades de redes sociais à comunidade humana
    Queridos irmãos e irmãs!
    Desde quando se tornou possível dispor da internet, a Igreja tem sempre procurado que o seu
    uso sirva ao encontro das pessoas e a solidariedade entre todos. Com esta Mensagem, gostaria
    de vos convidar uma vez mais a refletir sobre o fundamento e a importância do nosso ser-em-
    relação e descobrir, nos vastos desafios do atual panorama comunicativo, o desejo que o homem
    tem de não ficar encerrado na própria solidão.
    As metáforas da “rede” e da “comunidade”
    Hoje, o ambiente dos mass-media é tão invasivo que já não se consegue separar do círculo da
    vida quotidiana. A rede é um recurso do nosso tempo: uma fonte de conhecimentos e relações
    outrora impensáveis. Mas numerosos especialistas, a propósito das profundas transformações
    impressas pela tecnologia às lógicas da produção, circulação e fruição dos conteúdos, destacam
    também os riscos que ameaçam a busca e a partilha de uma informação autêntica à escala
    global. Se é verdade que a internet constitui uma possibilidade extraordinária de acesso ao
    saber, verdade é também que se revelou como um dos locais mais expostos à desinformação e à
    distorção consciente e pilotada dos fatos e relações interpessoais, a ponto de muitas vezes cair
    no descrédito.
    É necessário reconhecer que se, por um lado, as redes sociais servem para nos conectarmos
    melhor, fazendo-nos encontrar e ajudar uns aos outros, por outro, prestam-se também a um uso
    manipulador dos dados pessoais, visando obter vantagens no plano político ou econômico, sem
    o devido respeito pela pessoa e seus direitos. As estatísticas relativas aos mais jovens revelam
    que um em cada quatro adolescentes está envolvido em episódios de cyberbullying.[1]
    Na complexidade deste cenário, pode ser útil voltar a refletir sobre a metáfora da rede, colocada
    inicialmente como fundamento da internet para ajudar a descobrir as suas potencialidades
    positivas. A figura da rede nos convidaa refletir sobre a multiplicidade de percursos e nós que,
    na falta de um centro, uma estrutura de tipo hierárquico, uma organização de tipo vertical,
    asseguram a sua consistência. A rede funciona graças à coparticipação de todos os elementos.
    Reconduzida à dimensão antropológica, a metáfora da rede lembra outra figura densa de
    significados: a comunidade. Uma comunidade é tanto mais forte quando mais for coesa e
    solidária, animada por sentimentos de confiança e empenhada em objetivos compartilháveis.
    Como rede solidária, a comunidade requer a escuta recíproca e o diálogo, baseado no uso
    responsável da linguagem.
    No cenário atual, salta aos olhos de todos como a comunidade de redes sociais não seja,
    automaticamente, sinônimo de comunidade. No melhor dos casos, tais comunidades conseguem
    dar provas de coesão e solidariedade, mas frequentemente permanecem agregados apenas
  • indivíduos que se reconhecem em torno de interesses ou argumentos caraterizados por vínculos
    frágeis. Além disso, na social web, muitas vezes a identidade se funda na contraposição ao
    outro, à pessoa estranha ao grupo: define-se mais a partir daquilo que divide do que daquilo que
    une, dando espaço à suspeita e à explosão de todo o tipo de preconceito (étnico, sexual,
    religioso e outros). Esta tendência alimenta grupos que excluem a heterogeneidade, alimentam
    no próprio ambiente digital um individualismo desenfreado, acabando às vezes por fomentar
    espirais de ódio. E, assim, aquela que deveria ser uma janela aberta para o mundo, torna-se uma
    vitrine onde se exibe o próprio narcisismo.
    A rede é uma oportunidade para promover o encontro com os outros, mas pode também agravar
    o nosso autoisolamento, como uma teia de aranha capaz de capturar. Os adolescentes é que
    estão mais expostos à ilusão de que a social web possa satisfazê-los completamente a nível
    relacional, até se chegar ao perigoso fenômeno dos jovens “eremitas sociais”, que correm o
    risco de se alhear totalmente da sociedade. Esta dinâmica dramática manifesta uma grave
    ruptura no tecido relacional da sociedade, uma laceração que não podemos ignorar.
    Esta realidade multiforme e insidiosa coloca várias questões de caráter ético, social, jurídico,
    político, econômico, e interpela também a Igreja. Enquanto cabe aos governos buscar as vias de
    regulamentação legal para salvar a visão originária de uma rede livre, aberta e segura, é
    responsabilidade ao alcance de todos nós promover um uso positivo da mesma.
    Naturalmente não basta multiplicar as conexões, para ver crescer também a compreensão
    recíproca. Então, como reencontrar a verdadeira identidade comunitária na consciência da
    responsabilidade que temos uns para com os outros inclusive na rede on-line?
    “Somos membros uns dos outros”
    Pode-se esboçar uma resposta a partir de uma terceira metáfora – o corpo e os membros – usada
    por São Paulo para falar da relação de reciprocidade entre as pessoas, fundada num organismo
    que as une. “Por isso, despi-vos da mentira e diga cada um a verdade ao seu próximo, pois
    somos membros uns dos outros” (Ef 4, 25). O fato de sermos membros uns dos outros é a
    motivação profunda a que recorre o Apóstolo para exortar a se despirda mentira e dizer a
    verdade: a obrigação de preservar a verdade nasce da exigência de não negar a mútua relação de
    comunhão. Com efeito, a verdade se revelana comunhão; ao contrário, a mentira é recusa
    egoísta de reconhecer a própria pertença ao corpo; é recusa de se dar aos outros, perdendo assim
    o único caminho para se reencontrar a si mesmo.
    A metáfora do corpo e dos membros nos leva a refletir sobre a nossa identidade, que se funda
    sobre a comunhão e a alteridade. Como cristãos, todos nos reconhecemos como membros do
    único corpo cuja cabeça é Cristo. Isto nos ajuda a não ver as pessoas como potenciais
    concorrentes, considerando os próprios inimigos como pessoas. Já não tenho necessidade do
    adversário para me autodefinir, porque o olhar de inclusão, que aprendemos de Cristo, faz-nos
    descobrir a alteridade de modo novo, ou seja, como parte integrante e condição da relação e da
    proximidade.
    Uma tal capacidade de compreensão e comunicação entre as pessoas humanas tem o seu
    fundamento na comunhão de amor entre as Pessoas divinas. Deus não é Solidão, mas
    Comunhão; é Amor e, consequentemente, comunicação, porque o amor sempre comunica;
    antes, comunica-se a si mesmo para encontrar o outro. Para comunicar conosco e Se comunicar
    a nós, Deus se adaptaà nossa linguagem, estabelecendo na história um verdadeiro e próprio
    diálogo com a humanidade (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, 2).
    Em virtude de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus, que é comunhão e
    comunicação-de-Si, trazemos sempre no coração a nostalgia de viver em comunhão, de
  • pertencer a uma comunidade. Como afirma São Basílio, “nada é tão específico da nossa
    natureza como entrar em relação uns com os outros, ter necessidade uns dos outros”.[2]
    O panorama atual nos convida, a todos nós, a investir nas relações, a afirmar – também na rede
    e através da rede – o caráter interpessoal da nossa humanidade. Por maior força de razão nós,
    cristãos, somos chamados a manifestar aquela comunhão que marca a nossa identidade de
    crentes. De fato, a própria fé é uma relação, um encontro; e nós, sob o impulso do amor de
    Deus, podemos comunicar, acolher e compreender o dom do outro e corresponder-lhe.
    É precisamente a comunhão à imagem da Trindade que distingue a pessoa do indivíduo. Da fé
    num Deus que é Trindade, segue-se que, para ser eu mesmo, preciso do outro. Só sou
    verdadeiramente humano, verdadeiramente pessoal, se me relacionar com os outros. Com efeito,
    o termo pessoa conota o ser humano como “rosto”, voltado para o outro, comprometido com os
    outros. A nossa vida cresce em humanidade passando do caráter individual ao caráter pessoal; o
    caminho autêntico de humanização vai do indivíduo que sente o outro como rival para a pessoa
    que nele reconhece um companheiro de viagem.
    Do “like” ao “amém”
    A imagem do corpo e dos membros nos recordaque o uso da social web é complementar do
    encontro em carne e osso, vivido através do corpo, do coração, dos olhos, da contemplação, da
    respiração do outro. Se a rede for usada como prolongamento ou expectativa de tal encontro,
    então não se atraiçoa a si mesma e permanece um recurso para a comunhão. Se uma família
    utiliza a rede para estar mais conectada, para depois se encontrar à mesa e olhar-se olhos nos
    olhos, então é um recurso. Se uma comunidade eclesial coordena a sua atividade através da
    rede, para depois celebrar juntos a Eucaristia, então é um recurso. Se a rede é uma oportunidade
    para me aproximar de casos e experiências de bondade ou de sofrimento distantes fisicamente
    de mim, para rezar juntos e, juntos, buscar o bem na descoberta daquilo que nos une, então é um
    recurso.
    Assim, podemos passar do diagnóstico à terapia: abrir o caminho ao diálogo, ao encontro, ao
    sorriso, ao carinho... Esta é a rede que queremos: uma rede feita, não para capturar, mas para
    libertar, para preservar uma comunhão de pessoas livres. A própria Igreja é uma rede tecida pela
    Comunhão Eucarística, onde a união não se baseia nos gostos [“like”], mas na verdade, no
    “amém”com que cada um adere ao Corpo de Cristo, acolhendo os outros.
    Vaticano, na Memória de São Francisco de Sales, 24 de janeiro de 2019

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