Traga o dinossauro

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Seu Jorge manteve durante muitos anos seu negócio de transportes de pequenas cargas, lutando sol a sol pelo sustento da família na boleia de uma Kombi. Não ficou rico, mas conseguiu criar com algum conforto seu filho único, Marcos, e nunca deixou que nada faltasse para a esposa Ana.

Quando Marcos alcançou a adolescência, começou a ajudar o pai na empresa. Diariamente percorriam o interior da cidade e das cidades vizinhas, faziam pequenas viagens de entregas para lojistas, alguns fretes e pequenas mudanças. Tudo o que a Kombi pudesse carregar, virava serviço. Mas Marcos a cada dia ficava mais incomodado com a resistência do pai em modernizar o modo como gerenciava o negócio e, principalmente, na teimosia em manter a velha Kombi em operação.

A Kombi em questão era um modelo antigo, uma das primeiras clippers brasileiras, ano 1976, ainda mantida o mais original possível. Não era econômica, não era ergonômica, não era rápida. Não oferecia nenhum conforto, era barulhenta e poluidora. Era um “dinossauro”.

Com o passar do tempo as justificativas de Marcos para livrarem-se da Kombi eram cada vez mais frequentes. Logo conseguiu a carteira de motorista e passou a dirigir o “dinossauro”, redobrando a cobrança para que o pai trocasse a velha senhora por um carro mais novo e confortável. Tanto falou e resmungou que um dia o pai cedeu. Mandou que fosse procurar por uma substituta para a Kombi, mas com uma única condição: o “dinossauro” não seria vendido, permaneceria em casa.

Assim fez o filho. Foi para a capital com algumas poucas economias da família e após alguns dias comprou uma brilhante e novíssima van. Ar condicionado, direção hidráulica, vidros elétricos e outros mil trics trics. Seu Jorge tinha uma única preocupação com a nova van: vai fazer o que a kombi fazia? Marcos ria e dizia que nunca mais o dinossauro iria para a estrada.

Realmente, durante mais de seis meses, a nova van mostrou que poderia muito bem fazer todo e qualquer serviço que a velha Kombi fazia com muito menos combustível,  menos barulho, menos poluição e muito mais conforto. Até que um dia uma luz de alerta acendeu no painel. Guincho e duas semanas parados numa oficina para trocar um sensor. Mais alguns meses e algumas peças da suspensão não aguentaram o tranco. Mais três dias na oficina. Volta e meia a vanzinha dava algum problema que a obrigava a parar. E cada vez mais frequentemente. E cada vez mais dias esperando peças, todas importadas.

Até que choveu muito. Uma semana de chuvas grossas, sem parar. Grande parte do roteiro que seu Jorge fazia era pelo interior, com muitos quilômetros de estradas de terra, pedras, barro e tudo em muito mal estado. Nas estações de seca, o inconveniente era a poeira. Mas em tempos de chuvas, tudo virava lama e a nova van sofria. Sofria e entregava os pontos com sua tração dianteira e motorzinho de dentista. Marcos, que havia assumido o negócio, já não estava mais tão feliz com a substituta do dinossauro.

Quando demorava a retornar seu Jorge já sabia que logo o telefone iria tocar e uma frase que havia virado rotina seria dita pelo filho: “Traga o dinossauro”. Seu Jorge então partia com a kombi para resgatar o filho, a carga e a vanzinha em algum lugar do interior. Isso durou até que Marcos deu o braço a torcer.

Hoje a “Transportes Dinossauro” cresceu, tornou-se uma conceituada empresa especializada em transportes de pequenas cargas pelo o interior e famosa por manter uma frota só de kombis.

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