Só por cima do meu cadáver

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Foi muito triste. E inesperado também. Toda a família reunida para ao redor do leito do seu Moreira para celebrar seu octagésimo nono aniversário. Ele, doente há muitos anos, as vezes estava presente e outras vezes vagava pelos campos do esquecimento com seu amigo alemão, o Halzheimer.

De repente, do nada, ele brada com o último fio das suas forças uma coisa dessas. E morre, sem mais explicações:

- Só por cima do meu cadáver!

Demorou um tempo até que a tudo viesse a tona.  Foi Sergio, o cunhado, que desvendou o mistério.
Contou que estava junto da cabeceira da cama, conversando com o seu Moreira e um vizinho sobre a vida, o tempo e essas amenidades. Seu Moreira parecia distante, perdido dentro de seus próprios pensamentos. Mas quando a conversa passou a ser sobre o seu fusca, Moreira pareceu emergir de um longo mergulho e passou a acompanhar com interesse o assunto. Sergio contava para o vizinho que o Fusquinha 61 havia sido o primeiro e único carro do seu Moreira. Que do fusca seu Moreira havia tirado o sustento da família por muitos anos, como taxista. Que sempre fora o próprio Moreira que fizera todas as manutenções no carro e que se orgulhava disso. Mas infelizmente o fusca estava péssimo, muito ruim mesmo, parado a muitos anos, pois com a doença do seu Moreira, o carro havia sido esquecido no fundo da garagem. Hoje, cheio de ferrugem, pneus murchos, bancos rasgados, motor parado, o futuro dele certamente seria o ferro velho.
Foi aí que o seu Moreira gritou.

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