Sínodo: Cardeal Hummes aponta a missão da Igreja na Amazônia

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O Sínodo dos Bispos para a Amazônia tem como tema "Amazônia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. "O tema ressoa grandes linhas pastorais características do Papa Francisco. Definir novos caminhos. Desde o início de seu ministério papal, Francisco sublinha a necessidade de a Igreja caminhar", disse o cardeal Hummes em seu discurso.

O relator-geral do Sínodo para a Amazônia, cardeal Cláudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-amazônica (REPAM), fez seu pronunciamento no Sínodo, nesta segunda-feira (07/10).

Segue a íntegra do texto.

O tema do Sínodo, que ora iniciamos, é o seguinte: “Amazônia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. O tema ressoa grandes linhas pastorais características do Papa Francisco. Definir novos caminhos. Desde o início de seu ministério papal, Francisco sublinha a necessidade de a Igreja caminhar. Ela não pode ficar sentada em casa,  cuidando de si mesma, cercada de muros de proteção. Muito menos ainda, olhando para trás com certa nostalgia de tempos passados. Ela precisa abrir as portas, derrubar  muros que a cercam e construir pontes, sair e pôr-se a caminho na história, nos tempos atuais de mudança de época, caminhando sempre próxima de todos, principalmente de quem vive nas periferias da humanidade.  Igreja “em saída”. Para que sair? Para acender luzes e aquecer corações, que ajudem as pessoas, as comunidades, os países e a humanidade global a encontrar o sentido da vida e da história. Essas luzes são principalmente o anúncio da pessoa de Jesus Cristo, morto e ressuscitado e seu reino, bem como a prática da misericórdia, da caridade e da solidariedade  sobretudo para com os pobres, os sofridos, os esquecidos e descartados do mundo de hoje, os migrantes e os indígenas. 

“ Esse caminhar a torna fiel à verdadeira tradição. Uma coisa é o tradicionalismo que fica preso no passado, outra é a verdadeira tradição que é a história viva da Igreja, em que cada geração, acolhendo o que lhe é entregue pelas gerações anteriores como compreensão e vivência da fé em Jesus Cristo, enriquece esta tradição com sua própria vivência e compreensão desta mesma fé em Jesus Cristo no tempo atual. ”

Essas luzes: o anúncio de Jesus Cristo e a prática incansável da misericórdia, na tradição viva da Igreja, indicam o caminho a seguir num caminhar inclusivo que convida, acolhe e encoraja a todos, sem exceção, a caminharem juntos como amigos e como irmãos, respeitando as nossas diferenças, rumo ao futuro.

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“Novos caminhos”. Novos. Não ter medo do novo. Na homilia de Pentecostes de 2013, o Papa Francisco já afirmava: “A novidade causa sempre um pouco de medo, porque nos sentimos mais seguros se temos tudo sob controle, se somos nós a construir, programar, projetar a nossa vida de acordo com os nossos esquemas, as nossas seguranças, os nossos gostos. (...) Temos medo de que Deus nos faça seguir novos caminhos, nos faça sair de nosso horizonte muitas vezes limitado, fechado, egoísta, para nos abrir aos seus horizontes. Mas, em toda história da salvação, quando Deus se revela, traz novidade – Deus traz sempre novidade -, transforma e pede para confiar nele”. Na Evangelii Gaudium (n. 11), o Papa mostra Jesus Cristo como “a eterna novidade”. Ele é sempre o novo. Ele é sempre o mesmo, o novo, “ontem, hoje e sempre” (Heb 13,8) o novo. Por isso, a Igreja reza: “Enviai, Senhor, o vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra”. Então, não tenhamos medo do novo. Não tenhamos medo de Cristo, o novo. Este sínodo procura novos caminhos. 

No seu discurso aos bispos brasileiros, durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, em 2013,  ao falar da Amazônia como “teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileiras”, o Papa propõe “relançar [ali, na Amazônia] a obra da Igreja”, “consolidar o rosto amazônico da Igreja” e “formar clero autóctone”, acrescentando: “Sobre isso, peço, por favor, para serem corajosos, para terem ousadia”. Isso nos remete necessariamente à história da Igreja na região. Desde os primórdios da colonização da Amazônia, ali também estiveram missionários católicos, seja para dar assistência aos colonizadores, seja para evangelizar os indígenas, na época. 

Assim começava a missão evangelizadora da Igreja na região. Entre luzes e sombras – mas certamente com prevalência das luzes – gerações subsequentes de missionários e missionárias, principalmente de Ordens e Congregações religiosas, mas também de padres diocesanos e de leigos – com destaque para as mulheres -  procuraram levar Jesus Cristo aos povos do território e constituir comunidades católicas. É justo recordar, reconhecer e enaltecer, neste sínodo, a história heroica - e muitas vezes mártir - de todos os missionários e missionárias do passado e também daqueles e daquelas de hoje na Pan-amazônia.

Ao lado dos missionários, houve também sempre numerosas lideranças leigas e indígenas que deram testemunho heroico e por isso muitas vezes foram e ainda continuam a ser assassinadas. Deve-se ter presente também que a Igreja missionária da Amazônia se destacou  através de sua história – e ainda hoje se destaca - com grandes e fundamentais serviços para a população local na área da escolarização, da saúde, do combate à pobreza e à violação dos direitos humanos.  Por outro lado, a história da Igreja na Pan-amazônia mostra que sempre houve grande carência de recursos materiais e de missionários para um desenvolvimento pleno das comunidades, destacando-se a ausência quase total da Eucaristia e de outros sacramentos essenciais para a vivência cristã cotidiana.

O rosto amazônico da Igreja local deve ser consolidado, como disse o Papa Francisco no já citado discurso aos bispos brasileiros e mesmo seu rosto indígena nas comunidades indígenas, como exortou o Papa em Puerto Maldonado (19.01.2018). Desde o anúncio do sínodo, o Papa deixou claro que a relação da Igreja com os povos indígenas e com a floresta na Amazônia, é um de seus temas centrais. De fato, anunciando o sínodo e indicando sua finalidade, Francisco disse: “Finalidade principal desta convocação é encontrar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, sobretudo dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem perspectiva de um futuro sereno, também por causa da floresta amazônica, pulmão de importância fundamental para o nosso planeta” (Vaticano, 15.10.17).

E em Puerto Maldonado, disse aos povos indígenas: “Quis vir visitar-vos e escutar-vos, para estarmos juntos no coração da Igreja, solidarizarmo-nos com os vossos desafios e, convosco, reafirmarmos uma opção sincera em prol da defesa da vida, defesa da terra e defesa das culturas”. Na fase da escuta sinodal, os povos indígenas tem manifestado de muitos modos que querem o apoio da Igreja na defesa e promoção de seus direitos, na construção de seu futuro e pedem que a Igreja seja uma aliada constante.


Créditos: Vatican News

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