O Fusca do padre

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Hoje vou partilhar uma história muito interessante e engraçada e que envolve um fusquinha e seu dono, um padre.

Esse padre era o feliz proprietário de um fusquinha 1967 bege, presente que sua mãe lhe dera quando da sua ordenação.

Por longos anos esse fusquinha foi o fiel companheiro do padre para levá-lo às comunidades do interior celebrar missas, batizados, casamentos, encomendações e enterros. Também era seu carro do dia a dia, para ir ao mercado ou até a casa de alguma família que morasse mais distante da paróquia. Como todo bom fusca, suportou os anos de trabalho contínuo com muita bravura, cobrando apenas as trocas de óleo, gasolina e, de vez em quando, um ou outro conserto. Envelheceu com muita saúde, apesar das marcas do tempo serem evidentes. Esse fusca ostentava aquela beleza sincera da ação do tempo sobre a pintura, da ferrugem miúda nos parachoques cromados, dos escapamentos flautinha desalinhados e das calotas perdidas e nunca repostas. Lindo mesmo.

Porém, com o padre o tempo não havia sido tão complacente. A visão enfraqueceu, os cabelos branquearam e a maioria se despediu e a audição diminuiu lentamente, até abandoná-lo quase que por completo. Mesmo assim, o padre e seu fusquinha 67 continuavam com sua missão/vocação, levando a Palavra de Deus e seus ensinamentos para todos.

Em uma feita, nos idos da década de 80, vinham lá nossos personagens retornando de um casamento no interior. Noite grande de verão e cansado, o padre apertava o fusquinha para chegar logo em casa. Sob o clarão da lua cheia o fusca cortava a estrada quando de repente, depois de uma curva, se toparam com muitas luzes, luzes piscantes, pessoas no meio da pista fazendo sinais, outros carros parados. Uma grande confusão. Demorou até o padre perceber que era uma barreira policial. Um policial lhe fazia sinais e apitava insistentemente.

 “Mas o que será que esse polícia quer?”, pensou enquanto parava o fusca bem lá adiante.

 “Boa noite. Documentos do carro e habilitação, por favor”, disse o policial. Mas o padre compreendeu só até o “Boa noite”.  Educadamente respondeu com outro “Boa noite” e permaneceu teso no volante. Percebendo que o motorista do fusquinha não fazia menção de lhe atender, o policial pede novamente os documentos. Mais uma vez o padre não compreende a mensagem e permanece imóvel. Impaciente e desconfiado, o policial então ordena enquanto se afasta da porta do fusca:

 “Desça do carro. O senhor deve me acompanhar”.

Desce então o padre do fusquinha, puxa do bolso o aspersor de água benta e sai benzendo o policial, a estrada, os outros carros, as viaturas e os outros policiais:

 “Deus pai todo poderoso os abençoe e livre de todos os perigos da estrada e da profissão! Virgem Maria, santíssima mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, tenha a família desses ‘polícia’ sob a proteção do seu manto sagrado de amor! E que os anjos e santos e toda a milícia celeste intercedam por eles e por todos os seus colegas de farda. Amém”.

O policial, atônito, pergunta então o porquê da ladainha toda.

 “Ué seu ‘polícia’, mas foi o senhor que disse ‘Desça do carro para me abençoar”.

Depois dessa, o policial desistiu de ver os documentos e só alertou, agora em alto e bom tom, para que o padre ao menos ligasse os faróis do fusca para viajar de noite.

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