Nos tempos da confiança

Postado por: Adalíbio Barth

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As famílias de outros tempos, com muitos filhos, não sabiam como se deslocarem todos juntos de um lugar para outro. Precisavam de diligências e aranhas, puxados por vários cavalos. Mas acomodar a todos, não era nada fácil, especialmente para participar em maiores eventos e nas celebrações religiosas.

Um morador, pai de muitas crianças, resolveu enfrentar a situação com­prando uma “Kombi”, condução que ofereceria ao menos doze lugares, caben­do a família toda. Resolvida a compra, partiu para uma cidade maior, aprovei­tando o único ônibus que fazia a linha. As pessoas daquela época eram muito inocentes, acreditando na palavra de cada um, confiando na honestidade dos outros, não tendo medo de roubos e assaltos, levando dinheiro em sacola.

Assim partiu para a compra da sonhada Kombi. Ao chegar à cidade gran­de, foi à procura da mesma, pois, todos diziam que lá havia muitas. Entrou numa loja, pedindo pela condução.

- Nós vendemos somente roupas!

Em outra, desculparam-se, dizendo venderem somente calçados. Em outra ainda, mostraram as prateleiras repletas de peças para marceneiros. Enfim, ba­teu em muitas lojas, pedindo pelo cobiçado meio de transporte.

Uma pessoa atenciosa, vendo a simplicidade deste homem de bem, indi­cou o local certo, onde se comercializavam tais veículos. Ao chegar, foi atendi­do prontamente, com os vendedores colocando-se à disposição para as devidas explicações.

- Vocês têm Kombi para vender? – abriu imediatamente a conversa.

- Temos, sim senhor! Mas vamos sentar-nos e tomar um cafezinho! – aco­lheu-o carinhosamente o negociante de automóveis.

- Não! – respondeu ele. – Já tomei café em casa. Eu só quero saber o preço de uma Kombi.

- O mercador, acostumado a diversas explicações para motivar o cliente, não teve tempo para expor maiores vantagens dessa ou daquela condução.

- Não! Eu só quero saber o preço.

O atendente fez os cálculos e mostrou-lhe o preço final, dizendo que a entregaria em sua casa. Ao dizer o preço, nosso comprador, concordou com o numerário pedido, e confirmou a compra.

- Por este preço, eu fico com uma!

E abrindo a pasta, começou a tirar o dinheiro correspondente e a contá-lo à sua frente.

Ante tal simplicidade e confiança, o lojista colocou um jornal por cima do dinheiro e pediu os documentos necessários para oficializar a compra. Re­alizados todos os procedimentos, passaram na caixa da loja, liquidando toda a conta.

Fornecido o endereço da entrega da condução, retornou à sua terra feliz pela compra realizada, contando a todos, as dificuldades que enfrentou para encontrar a Kombi e que vão entregá-la em sua casa, dentro de uma semana. O comentário geral era de que fora vítima de um golpista e que este veículo jamais seria entregue, porque desconhecia até o nome da Firma, onde havia comprada a condução.

A surpresa foi a entrega da falada Kombi, antes do prazo previsto. Depois de muitos anos, o motor deste veículo continua a despertar, já de longe, todos os cachorros da redondeza, lembrando com saudade os tempos de honestidade e confiança.

As pessoas recordam com saudades os tempos em que a honestidade era um valor que não se abria a mão. Vivia-se com mais confiança nas pessoas, acreditava-se em suas palavras e não havia necessidade de muitos documentos. Pessoas simples são exploradas em sua boa-fé, e os expertos roubam-lhes o que sempre lhes foi sagrado: a palavra dada.

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